O boato da apparição do frade em Cezár corrêra durante um ou dois dias, mas padre Antonio, a quem Ignacio da Fonseca e outros visinhos fallaram no assumpto, foi de parecer que, depois das duas buscas dadas pela justiça á casa do Outeiro, frei Simão não iria metter-se por muito tempo na bôca do lobo. Ou não teria vindo ou já se teria retirado.
Ora o coadjuctor havia dito a frei Simão:
—Se me communicarem a suspeita da vinda de Vossa Reverencia a Cezár, responderei, sem encarregar a minha alma, com a subtileza do franciscano, que enfiou uma das mãos pela manga da outra e affirmou que por alli não tinha passado certo criminoso. O meu dever é servir a Deus, e Deus manda dar pousada aos perigrinos. Vossa Reverencia, na situação em que se acha, não é senão um perigrino.
Quando chegou a noite em que frei Simão tinha de ir a Cezár, padre Antonio disse-lhe com uma resolução que não estava muito nos seus costumes de malleavel brandura:
—Eu vou com Vossa Reverencia, sem o menor intento de prejudicar o recato das suas expansões. Mas como hospedeiro, quero correr a mesma sorte do hospede.
Frei Simão procurou demovêl-o do proposito; não conseguiu.
—Figuraremos, insistiu o coadjuctor, ir levar o viatico a um moribundo; quod Deus avertat. Vossa Reverencia veste uma das minhas batinas e cobre um dos meus capotes; são andainas velhas, mas que servem para de noute. Preveniremos assim o caso de algum mau encontro, o que aliás não é de esperar. Mas, de passagem, ninguem poderá averiguar se Vossa Reverencia é o nosso sachristão ou algum ecclesiastico, que accidentalmente seja hospede do sr. abbade.
E, receioso de que frei Simão podesse vêr n’estas involuntarias palavras alguma allusão pungente, accrescentou com promptidão:
—E não se enganarão n’este ultimo caso, porque Vossa Reverencia, se deixou o convento, não deixou a Deus. Eu o sei.