Frei Simão não conseguiu, mais uma vez, evitar que padre Antonio Pinheiro o acompanhasse.

Sahiram ambos da abbadia, alta noite, caminhando em silencio. A distancia é pequena: os dois edificios, o Passal e o Outeiro, avistam-se um ao outro.

A familia de frei Simão estava prevenida. Foi Francisco Marques quem veiu abrir, discretamente, a Porta Vermelha. E logo após elle correram pressurosas D. Maria Albina e D. Antonia[5]. As lagrimas d’estas duas senhoras diziam mais do que as palavras, n’aquelle lance solemne.

Padre Antonio assistia, como em extasi, a esse commovente drama intimo, em que uma familia estreitava, no infortunio, os seus laços de extremoso affecto. E mais uma vez, depois que conhecia de perto frei Simão, o coadjuctor de Cezár lastimava a cegueira das paixões politicas, que fazem com que os adversarios se apreciem uns aos outros com revoltante injustiça. Ali estava elle no meio de uma familia de malhados, e não poderia encontrar outra mais respeitavel, nem mais exemplar na resignação christã.

O frade encaminhou-se, seguido pelas irmãs, ao quarto de D. Anna.

Padre Antonio quedou-se no corredor com delicado proposito; mas frei Simão, voltando-se, e vendo-o parado, disse-lhe amoravelmente:

—Venha comigo, sr. padre Antonio. Todos somos familia.

Anninhas estava sentada n’um canapé: os braços ligeiramente desviados do tronco; as mãos tremulas—com os dedos muito juntos, o pollegar sobreposto ao index—apoiadas na cintura; os joelhos tendendo um para o outro n’um movimento de adducção; os pés mettidos para dentro; a cabeça pendida para deante.

Não viu frei Simão logo que elle entrou no quarto. Mas quando os seus olhos encontraram o vulto do frade, que, commovido, estacára deante do canapé, os labios da pobre senhora, ordinariamente cerrados e ás vezes franjados d’espuma, abriram-se n’uma indiscriptivel sensação de surpresa, e um grito, agudo, vibrante, como aquelle que se seguira á leitura da carta anonyma, eccoou no aposento, ouvindo-se em toda a casa.

Frei Simão, chorando effusivamente, avançou abrindo os braços para a irmã, que procurava levantar-se do canapé, e padre Antonio Pinheiro, cahindo de joelhos, disse em voz alta, uma voz repassada de uncção religiosa, este versiculo de David: