Quando sentia o tinir das ferraduras do cavallo impaciente no largo que se defronta com a egreja, e a meio do qual se levanta um cruzeiro, era que o abbade apparecia á varanda aberta, que então havia no Passal, calçando ainda as suas grandes luvas de anta.

Depois, de chicote debaixo do braço, apertando por ventura algum botão das luvas, descia a escada, e examinava o cavallo, que um lacaio segurava pela rédea.

Se não tinha qualquer observação a fazer, montava com firmeza, e lá ia, como se dizia então, fazer estremecer as pedras das ruas em Oliveira de Azemeis.

Este typo de abbade, dado a proezas equestres e venatorias, padre enxertado em sportman, foi muito vulgar n’aquelle tempo.

A sua toilette mundana era a casaca.

O famoso bispo santo de Bragança e Miranda, D. Antonio Luiz, que por esse tempo era assumpto de contradictorias opiniões, queixou-se em carta ao abbade de Rebordães de que, ao tomar conta da sua diocese, o commum da clerezia trazia casaca, salvos alguns raros ecclesiasticos, mais pios, que usavam uma chamarra aberta; e accrescentava que só á força de advertencias conseguira impôr o habito talar cerrado na forma dos canones.

Mas o bispo santo não fizera escola nem entre os prelados seus collegas, nem entre o clero de Bragança e outras dioceses. O que em geral os ecclesiasticos vestiam fóra da egreja era a casaca de sêda. O abbade Moreira Maia não singularisava, pois, uma excepção.

E, com a liberdade então permittida á sua classe, passava grandes temporadas longe da parochia, em festas de sport e distracções artisticas, sempre com um certo cunho de elegantes mundanidades.

Levava comsigo para as caçadas e demais excursões recreativas todos os seus lacaios, todos os criados de libré, em numero ostentoso.

Na abbadia ficava apenas uma criada velha, Gertrudes Magna, tia do padre Antonio Pinheiro, que ella havia creado de pequenino, e que o abbade escolhera como coadjuctor, para curar a parochia durante as suas longas e frequentes ausencias.