Este padre era um espirito concentrado, que fugia ao mundo. Vivia habitualmente no Passal de Cezár, mettido no seu quarto, entregue á leitura dos livros santos, e sempre prompto ao trabalho parochial, que o abbade tantas vezes declinava n’elle.

Vivia uma vida simples, frugal, inteiramente opposta á do abbade.

Era uma alma sincera, incapaz de odios, mas a quem causavam horror todos os inimigos da religião christã, suppostos ou verdadeiros.

Frei Simão, para elle, estava n’este caso. Horrorisava-o, porque era pedreiro-livre, segundo se dizia, e os pedreiros-livres, sobre não ter religião, insultavam-n’a.

Por sua parte, o abbade Moreira Maia não podia gostar, como realista que era, do frade constitucional do Outeiro. Mas não o detestava, porque o seu animo era avesso a perseguições facciosas e porque, respeitador da tradição das familias, reconhecia em frei Simão um homem de boa linhagem.

José Maximo, depois das explicações que tivera com o tio, resolveu escrever a frei Simão, communicando-lhe que Ignacio da Fonseca via com maus olhos que publicamente conversassem um com o outro. Contava-lhe o caso da Folhinha do Père Gérard. E pedia-lhe que continuasse a ser seu amigo, e a manter relações com elle, embora precisassem, d’ali em deante, occultar discretamente as suas entrevistas.

Para ser mais uma vez agradavel ao tio, José Maximo limpou uma espingarda velha que encontrou a um canto da casa, e foi caçar.

Completando o disfarce, o estudante disparava muitos tiros sempre que avistava Ignacio da Fonseca trabalhando nos campos com os criados.

O tio, ouvindo as detonações successivas, olhava para o ar e, como não visse passar caça, ria-se, e dizia para os criados: