Ignacio da Fonseca não gostou da severidade com que padre Antonio pronunciou estas ultimas palavras.

—Elle desconfiaria de alguma cousa? perguntava a si mesmo o tio de José Maximo quando sahia do Passal.

E padre Antonio, fechando a porta logo que elle sahiu, foi direito á cosinha, e disse a Gertrudes Magna:

—Que grande ousadia esta! Elle veio espionar-nos! Suspeitaria da estada de frei Simão aqui? Então é certo que eu sou um cego, um imprevidente, e que quem tinha razão era o nosso hospede. Está-me parecendo que os desgraçados são como as gaivotas, que presentem os temporaes. Bem fez frei Simão em voar para longe, em fugir para o Porto.

Ignacio da Fonseca, chegando irritadissimo a casa, disse ao Manel Zarôlho, um rapazote vêsgo, de má cára, que costumava comprehender e executar todos os planos secretos do amo:

—Tu és uma grande bêsta! Isso é que tu és! Vires dizer-me que «vistes» luz, fóra das horas do costume, por baixo da porta na sala da Residencia e que, escutando á fechadura, «ouvistes» a voz do coadjuctor e outra voz que era a de frei Simão! Logo me quiz parecer que tudo isso cheirava a asneira grossa! O padre Antonio recebia lá um pedreiro-livre, um’alma de chicharro, que tresanda a enxofre! E eu tão tôlo, que acabei por dar-te algum crédito, quando tu teimavas que uma das vozes era a do frade malhado! Eu já te devia conhecer, grande burro!

E o Manel Zarôlho resmungou por entre dentes:

—Quando me mandou ir pôr o papel na janella do Outeiro, com risco de lá deixar a vida, como já tinha deixado antes o chapeu, não me chamou elle grande burro! Deixa estar, meu patife, que eu, para outra vez, te mandarei bugiar.

N’esse momento, o Zarôlho nutria no coração uma surda cólera contra o amo, que acabava de o insultar, esquecendo os seus damnados serviços. Mas contentou-se apenas com resmonear, porque, como todos os cobardes, era capaz de morder na sombra, posto fosse absolutamente incapaz de, no ataque ou na defesa, affrontar a luz do sol.