Na proclamação em que o duque de Orleans fallou aos habitantes de Pariz havia uma phrase, que recordava a José Maximo outro ideial já para elle consagrado pelo sêllo angustioso das suas proprias lagrimas. Era esta: «Une Charte será désormais une verité». Parecia-lhe ser traducção fiel do grito constitucional que Saldanha tinha levantado no Porto para fazer jurar a Carta de D. Pedro.

Confundido com a multidão, José Maximo viu o duque de Orleans apparecer a uma das janellas do Hotel-de-Ville desfraldando a bandeira tricolor. N’esse momento a monarchia, personificada em Luiz Filippe, recebia da republica, representada em Lafayette, o baptismo da democracia; surgia, segundo a propria expressão de Lafayette, um throno popular, em nome da soberania nacional, rodeado de instituições republicanas.

A onda de liberdade, que inundava a França, chegava até ao coração de José Maximo.

A fogosa imaginação do infeliz portuguez acreditava mais do que devia na sinceridade da politica. Elle, um exaltado, enganou-se, o que aconteceu tambem a Lafayette, porque a monarchia de Julho não foi a melhor das republicas.

Mas José Maximo, cabeça enthusiastica, ardente de ideiaes generosos, cria na redempção da França pela liberdade, e na sua influencia como elemento modificador do velho regimen politico de toda a Europa.

Assim como o ébrio entrevê, atravez dos fumos da embriaguez, as imagens confusas da vida real, José Maximo, recebendo directamente as impressões da «grande semana de Julho», enxergava ao longe, perdido nos nevoeiros do passado, o vulto de D. Anna de Vasconcellos,—a sombra querida que povoava todo o seu mundo de recordações dolorosas.

Em seguida á tragedia do Cartaxinho, José Maximo, julgando-se irremediavelmente perdido, apenas pensára em apagar em si mesmo o labéo de um crime monstruoso, a que involuntariamente se associara. Até a physionomia desfigurou n’um momento de desespero. Agora, ainda que novos acontecimentos politicos viessem absolver o criminoso, tudo estava perdido para o homem que já não poderia voltar sobre o passado.

Dado que chegasse a realisar-se a hypothese de D. Anna de Vasconcellos resistir á commoção do primeiro momento, elle não ouzaria apparecer-lhe na hediondez do seu disfarce.

Por isso procurava embriagar-se com o primeiro vinho que encontrava á mão, e a liberdade era ainda, como sempre fôra, a melhor embriaguez para um espirito que tanto amava a liberdade.