—Não me conheces, disse elle, e tens razão. Do homem que eu fui não resta senão a tormentosa memoria de mim proprio. Na matricula da Universidade chamava-me José Maximo da Fonseca; mas entre a academia talvez que não esteja ainda apagada a lenda portuense do Fresca Ribeira...
—Tu?!
—Eu mesmo.
—Mas essas queimaduras e cicatrizes?!
—São o disfarce de um criminoso ou, antes, a mascara do foragido, porque Deus sabe se estou innocente.
Rodrigues Moacho ficou horrorisado com a narrativa dos soffrimentos e trabalhos de José Maximo. Combatendo um ao lado do outro, como voluntarios, pela independencia da Belgica, a antiga amisade dos dois academicos de Coimbra renascia e retemperava-se na adversidade de um destino commum.
O baterem-se pela liberdade, posto que em terra extranha, era para elles um lenitivo que a coincidencia de se haverem encontrado tornava ainda maior.
Mas o exercito hollandez, repellido em Bruxellas e outras cidades do Brabante, havia-se refugiado em Antuerpia, seu ultimo reducto no territorio belga.
Rodrigues Moacho e José Maximo tiveram, pois, que depôr as armas, ainda antes do mez de novembro, que foi quando, intervindo a diplomacia, as potencias tomaram conta da questão e reconheceram, na conferencia de Londres, a independencia da Belgica.
Não permittiu Rodrigues Moacho que José Maximo continuasse a vestir a sua blusa de caldeireiro ambulante, e a exercer esta profissão, mas José Maximo parecia contrariado de ter que obedecer a tão dedicada exigencia.