—Pelo amor de Deus! sr. frei Simão! lembre-se de que Jesus Christo perdoou aos deicidas que o crucificaram. Tem soffrido, é certo, não o negarei eu, mas pague-se da sua desgraça deixando que os outros, errantes agora e foragidos, soffram igual tormento. Não exagere a sua desforra, não appelle para o morticinio.
—Vossa Senhoria sabe que eu não sou uma féra, mas esperei, soffrendo, a hora da justiça, da justiça apenas, sr. abbade, e essa hora acaba de soar. Acceitarei as resoluções da Providencia. Foi Deus que assim o quiz. Os designios da Providencia acceitam-se, não se discutem. Esteja Vossa Senhoria tranquillo. Eu vou ali ao Outeiro vêr minhas irmãs, que não sabem o que é feito de mim.
—Só isso? perguntou o abbade tremulo de commoção.
N’este momento, frei Simão viu a cabeça branca de Gertrudes Magna espreitando avidamente a meio do corredor!
—Venha cá, disse-lhe o frade, venha cá, santa e boa mulher, a quem devo muita dedicação. É digna do virtuoso sobrinho que tem,—concluiu frei Simão voltando-se para o abbade e abraçando a velha. Mais uma vez, ao sr. abbade, a padre Antonio, a esta boa creatura renovo a expressão de um eterno reconhecimento.
E sahiu, saudando respeitosamente o abbade.
Gertrudes Magna, petrificada a meio da porta do corredor, exclamou soluçando:
—Deus tenha piedade d’elle, que grandes perigos anda correndo!
—Nem eu sei, replicou commovido o parocho, como elle poude chegar até aqui são e salvo!
—E logo o meu padre não estar cá hoje! Bem dizia elle que não tornava a vêr o sr. frei Simão! Tambem me parece agora que padre Antonio dizia a verdade!