—Não tenha Vossa Mercê receio, disse-lhe o frade. Devo suppol-a isenta de toda a culpa. Ninguem ousará maltratal-a. Mas seu marido onde está?
—Meu marido, respondeu a pávida mulher, abrindo a custo os olhos, meu marido fugiu de casa.
—Ah! fugiu! Era a consciencia do crime! Elle bem sabe que na casa do Outeiro ha uma pobre creatura, que lhe não tinha feito mal nenhum, e a quem elle condemnou a um soffrimento atroz.
—Meu Deus! meu Deus!
—Se seu marido temesse Deus, não haveria feito o que fez. Fugiu? Pois bem, a justiça de Deus o alcançará onde quer que elle esteja.
Frei Simão continuou a revistar todos os compartimentos do predio. Ignacio da Fonseca não apparecia; devia effectivamente ter fugido.
Voltando ao quarto onde a dona da casa estava ainda ajoelhada, o frade disse-lhe com intimativa:
—Senhora, os seus criados não lhe fazem falta, e eu preciso augmentar a minha guerrilha. Leval-os-hei comigo. Devem estar bem armados. E a vida de Vossa Mercê responderá pela segurança da familia do Outeiro. Ella por ella. Tendo fugido o dono da casa, não são precisos aqui os criados, porque não ha quem os dirija. E na ociosidade poderiam lembrar-se de praticar algum maleficio. Previno assim novas calamidades. Para o serviço de Vossa Mercê cá ficam as suas criadas, que devem chegar. Dito isto, pode Vossa Mercê ficar tranquilla, porque não correrá risco algum, se a minha infeliz familia não fôr aggravada.
Os criados de Ignacio da Fonseca não offereceram resistencia a entrar no meio da guerrilha. O frade distribuiu-lhes as armas e petrechos que encontrou na busca a toda a casa.
—O que tentar fugir, disse elle mandando marchar a guerrilha para o Outeiro, será fusilado como desertor.