A tal ponto se exaltou, que abandonou o Collegio das Artes e, deixando uma carta confidencial ao seu veterano Lemos, sahiu de Coimbra.
Chegou de noite a Cezár e foi bater á porta da casa do Outeiro, dizendo-se portador de uma mensagem secreta para frei Simão.
Após breves momentos de espera, o ex-frade de Alcobaça appareceu a receber o mysterioso mensageiro. Ficou admirado de vêr ali, áquella hora, José Maximo da Fonseca.
O estudante não justificou a visita senão pelas exaltadas palavras com que rapidamente denunciou o estado do seu espirito.
Vibrava indignado pelos acontecimentos de Lisboa. Sentia-se incapaz de estudar, revoltava-o a ideia de receber a instrucção pela taça da tyrannia, segundo o seu proprio modo de dizer. Preferia ser soldado e conspirador onde quer que a causa da liberdade carecesse dos seus serviços. Se fosse precisa uma cabeça para o sacrificio, da melhor vontade offereceria o seu corpo ao garrote e á fogueira.
Frei Simão teve um momento de bom conselho fazendo notar a José Maximo que elle arriscava o seu futuro, e incorreria não só no desagrado, mas até no odio do tio.
O estudante respondeu com fogosa convicção:
—Que me importa arriscar o futuro, se estou prompto a arriscar a vida?!
Frei Simão, encantado com o animo valoroso d’aquelle rapaz, que pelo ardor do sangue parecia seu irmão, deixou cahir a mascara, e tambem por sua vez clamou por vingança contra os algozes de homens cujo unico crime era amarem a liberdade e a patria.