Estabelecida uma intima communicação entre o frade e o estudante, como se uma corrente electrica os inflammasse simultaneamente, frei Simão contou a José Maximo que tinha recebido uma carta do Porto, de seu irmão Frederico, que em linguagem nublosa lhe dava a entender o que quer que fosse de possiveis combinações revolucionarias. Frei Simão suspeitava que Frederico o saberia por confidencia do coronel Sepulveda.
—Pois vou ao Porto! disse com resolução o estudante. E parto já.
—Já?! exclamou com surpresa frei Simão.
Correu o frade a uma das janellas e abriu-a de repente.
A madrugada clareava o ceu n’uma alvura nitente de leite crystalisado.
—Não! disse elle. Os criados de seu tio, e talvez elle proprio, já devem estar a pé. Seria uma imprudencia inutil atravessar agora Cezár, podendo ser surprehendido. Vossa mercê fica n’esta casa até que escureça, e partirá de noite. Dar-lhe-hei uma carta para meu irmão Frederico, que mora a Santo Ovidio, perto do quartel. Só lhe peço, como retribuição, que, n’uma cifra que logo combinaremos, me vá informando do que se passar no Porto.
Ficar n’aquella casa até á noite! Passar um dia inteiro sob o mesmo tecto que abrigava D. Anna de Vasconcellos! Só este programma de felicidade o poderia deter na sua louca aventura de ir ao Porto. Se fôra o amor que o trouxera a Cezár, a pretexto de desabafar com frei Simão, seria ainda o amor que o reteria ali durante umas felicissimas vinte e quatro horas, que passariam rapidas como um sonho.
José Maximo, olhando para dentro de si, sentia-se heroe. No meio d’aquella familia liberal, Anna de Vasconcellos seria decerto a primeira pessoa que lhe engrandeceria a coragem e o arrojo, e era justamente a seus olhos que elle ambicionava ser heroe laureado ou victima celebre. Pouco lhe importava que acontecesse uma ou outra cousa, comtanto que D. Anna o considerasse como um homem da estatura moral de frei Simão, capaz de arrostar com odios acerbos e de manter até ao heroismo as suas fortes convicções politicas.
Quiz frei Simão que José Maximo fosse descançar algum tempo da fadiga da jornada.
O estudante obedeceu por delicadesa, porque não sentia cansaço nem somno.