Deram-lhe o quarto dos hospedes, sempre preparado nas casas hospitaleiras da provincia.

José Maximo deitou-se, mas não conseguiu adormecer. A sua fogosa imaginação ardia em sonhos de vaga felicidade. Cria-se já um heroe na atmosphera d’aquella casa, a que o coração o prendia. A imagem de Anna de Vasconcellos, que devia estar ali perto, sorria-lhe como o anjo da victoria, que lhe promettesse os louros de um duplo triumpho.

Ás oito horas da manhã, frei Simão bateu á porta do quarto do hospede. Eram horas de almoço. José Maximo não se fez esperar muito tempo. O coração saltava-lhe do peito em palpitações desordenadas. Era que se aproximava o momento de, pela primeira vez, poder fitar rosto a rosto a mulher amada, que até ahi apenas tinha contemplado de longe.

Durante o almoço e as breves horas que se lhe seguiram, o precoce revolucionario do Fundão sentiu-se cobarde deante de D. Anna de Vasconcellos, a si proprio se extranhou pelo acanhamento que o enleiava. Cerca do meio-dia, o acanhamento converteu-se em extasi quando, na sala nobre do Outeiro, a formosa menina dedilhou timidamente cythara franceza, em honra do seu hospede. Ao declinar da tarde, o estudante tinha ganhado coragem, a ponto de, já senhor de si, poder dizer de fugida a D. Anna de Vasconcellos uma coisa que ella sabia a preceito: «Amo-a como se pode adorar um anjo.»

A esta incendida declaração de amor respondeu uma onda de sangue, que do coração subiu ás faces de Anna de Vasconcellos.

Pelas oito horas da noite, frei Simão chamou á parte José Maximo, que se preparava para partir, e disse-lhe:

—Vossa mercê certamente leva pouco dinheiro comsigo. Bolsa de estudante costuma ser magra.

José Maximo respondeu, de prompto, que não precisava dinheiro.

—Ha de precisar, replicou frei Simão, pelo menos para as primeiras despesas. Depois, meu irmão Frederico, como n’esta carta lhe recommendo, olhará por vossa mercê.

José Maximo quiz ainda resistir á offerta, mas frei Simão entregou-lhe uma peça de ouro, dez crusados novos, e, como galanteria, a titulo de recordação d’aquella visita, um napoleão, moeda franceza que Junot havia introduzido em Portugal, e que tinha corrido com o mesmo valor das peças portuguezas: 6$400 réis.