—Esta moeda, disse o frade referindo-se ao napoleão, ficou com algumas outras no pé de meia da minha familia como memoria historica de uma epocha nefanda. Quero eu que vossa mercê a possua como um vademeco que lhe ha de espiritar o amor á patria e á liberdade, quando se lembrar de que os tyrannos pretendem escravisar os povos não só pelo ferro, mas tambem pelo ouro.
José Maximo agradeceu, confundido, a generosa dádiva de frei Simão, e sahiu da casa do Outeiro tão fascinado pela recordação deliciosa d’aquelle dia como pela ambição de poder ser, aos olhos de Anna de Vasconcellos e da patria, um libertador audaz, um redemptor immortal.
Metteu por atalhos até encontrar, á distancia de uma legua, a estrada real de Coimbra ao Porto.
Graças á generosidade de frei Simão, poderia fazer o resto da jornada mais commodamente, logo que encontrasse no caminho um almocreve ou um lavrador que lhe quizesse alugar um macho.
Marchou desembaraçadamente toda a noite. Só quando já alvejavam os primeiros clarões da manhã, descançou recostado ao tronco de uma arvore, por alguns momentos. Então uma voz de camponesa, plangentemente cadenciada, começou a cantar a pequena distancia:
Quem quer vêr um infeliz,
Que nasceu ao pé da faya?
Não ha desgraça nenhuma,
Que n’este infeliz não caia!