—Rapazes! disse frei Simão aos seus guerrilheiros, eu sei o que é a angustia d’uma mulher attribulada. D’isso tenho exemplo na minha propria familia. Aqui está a razão por que não teimei em entrar na casa do Boiz. Se ali encontrassemos um marido, um filho, um irmão de qualquer d’aquellas pobres mulheres, matal-a-iamos de desgosto. Achei, pois, que o melhor era não procurar, por tal preço, inimigos nossos, que não deixaremos de encontrar em barda com as armas na mão, sejam esses mesmos ou sejam outros.
Os liberaes de Cezár, que aliás não eram muitos, enthusiasmados com a victoria de frei Simão, e considerando-a já um definitivo triumpho, tiveram a sua hora de embriaguez politica, depois que o frade se ausentou.
Incendiaram e saquearam algumas propriedades, de preferencia as dos mais encarniçados adversarios de frei Simão. Eram movidos pelo desejo de vingal-o, e á sua familia.
A devassa imputa pessoalmente ao frade todas essas represalias, chegando a dizer que elle, em Cezár, lançou por terra uma imagem de Christo, quebrando-lhe um braço. Esta nota tornava-se precisa no processo para fazer acreditar que frei Simão era effectivamente pedreiro-livre.
Não apparece na devassa noticia do combate em que a guerrilha venceu as milicias, junto a Cezár. Percebe-se. Os miguelistas occultaram o desastre, por ter sido completo e esmagador; mas afeiaram o procedimento do frade para o condemnar em saldo de contas.
Todavia um homem de pé descalço foi, a correr, levar a noticia da victoria de frei Simão ao alferes commandante da guarda da Farrapa, e dizer-lhe que o frade, depois de alguma demora, mettera pela estrada da Venda da Serra.
O alferes tratou logo de levantar as suas ordenanças, enviando ao mesmo tempo o alviçareiro a Arouca com aviso ao capitão-mór para que lhe acudisse com reforço.
Foi no sitio do Soutello que o alferes alcançou o frade, cerca das trez horas da tarde. Travou-se encarniçado combate, que frei Simão demorou propositadamente até ao escurecer, com o fim de aproveitar a noite para seguir caminho de Arouca.
Effectivamente, só ao lusco-fusco foi que o frade se retirou sobre o rio Arda, que atravessou a vau, dirigindo-se pela serra de S. Martinho ao monte da Corugeira.
A esse tempo chegava, em reforço, o capitão-mór de Arouca, que a guerrilha recebeu com uma descarga. Diz a devassa que n’essa occasião, respondendo as ordenanças com muita fusilaria, frei Simão fôra ferido. Não é exacto. O frade passou incolume, seguindo em direcção a Arouca, a coberto dos montes e da escuridão da noite. Descendo pela serra da Mó, foi, muito fatigado pelos trabalhos d’aquelle dia, pernoitar na casa da sua familia, no Outeiral.