Quando em Beja apurou discretamente que D. Anna de Vasconcellos tinha morrido, torturada por tão longos soffrimentos, começou a embriagar-se, o que até ali jámais havia feito.
Os curiosos, explorando o ébrio, faziam-lhe perguntas, a que elle então respondia, dizendo inconscientemente a verdade: Que tinha sido estudante de um e outro direito em Coimbra; que tivera parte no crime do Cartaxinho; que fugira e andára emigrado pela Belgica, França e Hespanha; e que ainda durante o governo de D. Miguel viera por algumas vezes a Portugal a vender matala-uva, sem que ninguem o reconhecesse, graças ao seu completo disfarce.
Apesar de embriagado, José Maximo chorava, n’uma funda tristeza, quando fazia estas revelações.
Mas nunca pronunciou uma unica phrase allusiva a D. Anna de Vasconcellos.
Esse segredo era para elle tão instinctivamente inviolavel, que nem a «verdade do vinho» lh’o podia arrancar.
O sr. Martins de Carvalho completa as suas informações escrevendo:
«Dizia-se em Beja e no Algarve que este homem era natural d’uma terra do Alemtejo, onde tinha familia.
«Em Beja ensinava aos estudantes do lyceu, quando com elles se encontrava no largo d’este edificio, latim, logica, e outros preparatorios, recebendo por isso o que lhe queriam dar.
«Conta-se que um seu contemporaneo do Alemtejo, fallando com elle, o reconhecêra; que instara para que deixasse a vida em que andava, e que até lhe dera facto novo para vestir. Apesar d’isso, continuou sempre até morrer no seu modo de vida.»
Faremos ligeiros commentarios a estas informações.