Uma vez em ferias, tudo se passou como de costume. José Maximo, de arma ás costas, rodeiava, com disfarce, a casa do Outeiro, para avistar Anna de Vasconcellos, que perpassava no pateo de pedra voltado para os campos ou assomava de fugida a alguma das janellas viradas ao nascente ou passeiava com as irmãs no souto de Santa Luzia.

N’aquelle tempo Cezár era uma terra morta, muito solitaria. Não a povoavam, como hoje, prédios garridos, de brazileiros dinheirosos. As duas torres da egreja, uma sem sinos, pareciam envergonhadas, em sua modestia, de defrontar-se com as estatuas pretenciosas do jardim do abbade,—unica pompa evidente em Cezár. O basto pinheiral da serra do Pinheiro, ao norte, occultava n’uma solidão melancolica alguns vestigios de construcções celticas, ruinas do passado. E ao sul, a capellinha alvejante da Senhora da Graça era a unica nota risonha, que quebrava a monotonia triste do pinheiral, prolongado e basto.

José Maximo não aguentaria o aborrecimento de Cezár, se a imagem de Anna de Vasconcellos, vista de longe, não pairasse sobre toda aquella adormecida solidão de pinheiros e campos de milho, illuminando-a como uma aurora. Mas forçoso era contentar-se com isso, vêl-a de longe, a discreta distancia, e com alguma secreta entrevista que tinha com frei Simão na espessura da serra do Pinheiro e em que juntos scismavam no que viriam a dar as mysteriosas combinações revolucionarias do Porto.

Chegado o dia de Reis, José Maximo, ardente de impaciencia, mandou um adeus escripto a D. Anna de Vasconcellos e partiu.

Ao cabo de algumas semanas de espera no Porto, passado o dia 21 de janeiro de 1818, Frederico Pinto disse-lhe com grande reserva:

—Amanhã, pelas oito horas da noite, vossa mercê irá á casa n.º 32 da rua das Taypas. Subirá cautelosamente até ao primeiro andar, e ahi baterá quatro pancadas na porta, com os nós dos dedos. Se de dentro lhe responderem com identico signal, vossa mercê poderá entrar com plena confiança, porque estará entre amigos, e fará o que lhe disserem.

José Maximo não dormiu essa noite, nem teve vontade de comer no dia seguinte.

Dirigindo-se, á hora convencionada, para a rua das Taypas, entrou na casa que Frederico Pinto lhe indicára, e bateu quatro pancadas na porta do primeiro andar, com os nós dos dedos. Houve um momento de silencio e de demora. Mas outras quatro pancadas responderam de dentro, e a porta abriu-se.

José Maximo, entrando, viu trez homens sentados a uma mesa, sobre a qual ardia um candieiro de latão com trez bicos. Todos os trez homens tinham a cara coberta por uma mascara de panno preto, similhante á dos Farricôcos das procissões de penitencia.

Este apparato de mysterio, em vez de maguar José Maximo, agradou-lhe, porque lhe deu a impressão de estar n’um club revolucionario, em exercicio de funcções.