—Mas, continuou Sepulveda sempre reflexivo, eu hei de fallar n’este caso ao Fernandes Thomaz. Veremos o que elle diz. Entretanto o ajudante vá-lhe dizendo que espere, sem lhe dar outras explicações, que nos possam comprometter.

—De certo, meu coronel. Farei isso.

Aquillo, no Porto, estava ainda muito atrazado. Refiro-me aos trabalhos preliminares da revolução. Fernandes Thomaz pensava n’ella; Ferreira Borges tambem. Sepulveda estava disposto a auxiliar o movimento. Mas não passava tudo ainda de vagos projectos, descosidos e nublosos.

Comtudo, o coronel, logo que esteve com Fernandes Thomaz, contou-lhe a historia de José Maximo. Riram ambos com o caso, mas Fernandes Thomaz, com a sua intuição de revolucionario, acabou por dizer:

—Quem sabe se o rapaz nos poderá prestar para alguma cousa, visto que frei Simão o afiança! Veremos.

Trez dias depois, José Maximo escrevia para Cezár a frei Simão. A sua carta, em cifra, denunciava certo desalento.

«Seu irmão, dizia-lhe elle, recebeu-me muito bem, mas, quanto ao que nós sabemos, apenas me disse: Espere. E eu estou esperando que o coração da patria accorde. Ardo na febre da impaciencia, e receio que ella chegue ao periodo agudo do desespero».

Aproximando-se o natal de 1817, José Maximo consultou Frederico Pinto sobre se deveria ir, como costumava, passar as ferias em Cezár. Já o ralavam saudades de Anna de Vasconcellos. E, pelo que tocava á revolução, não estava menos atormentado, se bem que Frederico Pinto lhe tivesse dito uma ou outra vez com mais alguma decisão: «Isto vai indo.»

Que fosse a ferias, aconselhou-lhe d’ahi a dias o alferes ajudante, para que o tio de Cezár não desconfiasse da sua estada no Porto. Mas concluiu por dizer-lhe em tom imperativo: «Vossa mercê deve voltar depois do Natal, porque parece que os seus serviços vão ser aproveitados.»

Oh! que doida alegria a que estas laconicas e mysteriosas palavras deram a José Maximo! Ia vêr Anna de Vasconcellos e entrar, finalmente, nos segredos da conspiração. Sentia-se duas vezes ditoso. Sob esta agradavel impressão partiu para Cezár.