Entrado o anno de 1820, rebentou em Hespanha a revolução liberal, que restaurou a constituição de Cadiz. O povo, amotinado, obrigou Fernando VII a revogar todos os actos com que tinha combatido a liberdade. E como o rei catholico cedesse promptamente, os revolucionarios hespanhoes imaginaram que estava definitivamente restabelecida em Hespanha a idadede-oiro do constitucionalismo. Que fugaz illusão de politicos de boa fé, muito theoricos ou, como hoje diriamos, muito nephelibatas! N’isto se pareceram os de cá com os de lá.

O que é certo é que a revolução de Hespanha alentou o animo dos conspiradores do Porto.

O Synhedrio ia augmentando em numero: eram treze os seus membros. Declararam-se adhesões até ahi latentes. Por exemplo, o coronel Sepulveda, aliás tão dedicado á causa da revolução, começou a frequentar as reuniões realisadas em casa de Fernandes Thomaz.

Meiado julho, attento o estimulo que viera de Hespanha e a apathia de Lisboa, resolveu a junta revolucionaria do Porto não deixar esfriar esse estimulo e tentar ainda vencer o retraimento medroso da capital.

Por este motivo resolveu-se que Fernandes Thomaz viesse a Lisboa. Veio, e trouxe comsigo José Maximo, que retomára o seu antigo disfarce de criado, para o acompanhar.

A regencia do reino, avisada de que Fernandes Thomaz tinha partido para Lisboa, expediu contra elle apertadas ordens de prisão.

Um dia, Fernandes Thomaz tinha sahido logo pela manhã para avistar-se com um amigo, que morava ao Arco da Graça. José Maximo ficou em casa a preparar-se para ir entregar umas cartas, que o desembargador havia escripto na vespera á noite.

Descia elle a escada, no seu disfarce de criado, quando entraram dois beleguins.

—Olá! ó rapaz! perguntou-lhe um dos esbirros, tu és criado cá da casa?

—Sou, sim, senhor.