Não tinha que vêr com a vaporosa idealisação da Margarida de Gœthe aquella Margarida Candida, de Chaves, a quem Antonio da Silveira, futuro visconde de Canellas, pozera a alcunha de Flor do Támega com uma galanteria alfacinha que tinha aprendido em Lisboa, durante os tormentosos dias em que, como presidente da junta do Porto, fez parte do governo constitucional, de arrependida memoria para elle.
Realmente, floria nas faces de Margarida Candida, presumptiva herdeira do abastado André Pinto, o carmim vivo dos cravos e das papoulas. Não era a mulher que parece quebrar pela cintura, flexivel como a haste de um lirio. Tinha a belleza da saude e da mocidade, algo serrana, mas esculptural.
Joaquim Maria era um guapo homem. Alguns velhos de Cezár affirmam ainda hoje que fôra «o homem mais bonito do seu tempo.» A farda de capitão de dragões e o garbo militar com que sabia uzal-a, davam realce aos dotes physicos que o distinguiam. Fica pois cabalmente explicada a fascinação que elle exerceu no espirito de Margarida Candida, apesar de ser alguns annos mais velho do que ella.
Mas o amor, se não conhece idades, desconhece tambem as balisas partidarias, que extremam os campos politicos.
Assim foi que Joaquim Maria, tão constitucional como todos os seus irmãos, á excepção de frei José, que era realista, se deixou captivar da graça desaffectada da sobrinha de André Pinto, silveirista da gemma.
A mascara do disfarce cahiu, logo que as lavas do amor vulcanisáram o coração dos dois namorados.
André Pinto percebeu a inclinação da sobrinha, contra a qual rompeu em desabridos improperios por amar um pedreiro-livre.
Pretendeu desacreditar a familia de Joaquim Maria e, por isso, dizia em voz alta que José Bernardo de Vasconcellos era filho de uma camponeza de Santa Christina de Mansores, chamada Maria Josepha.
Um flaviense de boa fé, muito intimo do fidalgo de Paiva, Martinho Pinto de Miranda Corrêa Montenegro, contestou que, por este seu amigo, sabia de sciencia certa que o avô de Joaquim Maria mandára educar o filho, e o deixára seu herdeiro; que, não obstante a creança ter sido baptisada como filho de paes incognitos, José Bernardo requerêra e obtivera a legitimação em 1819.
André Pinto barafustou contra esta réplica, insistindo em depreciar a linhagem do capitão de dragões.