Percebe-se. Era um adversario que chegava; mais um, porque no mosteiro já havia outro, D. Ernestina de Carvalho, ainda aparentada com o coronel de milicias reformado, Manuel Monteiro de Carvalho, um dos justiçados do Campo de Sant’Anna, em 1817.
Esta senhora era orphã de um guarda-livros do Porto, que nenhuns bens tinha deixado. Foi soccorrida, bem como a mãe, por um tio viuvo que vivia em Lisboa e tinha apenas um filho, que se destinava ao curso de leis. Mas como este tio morresse, tendo gasto com a propria familia e com a do irmão todos os seus honorarios de funccionario publico, Ernestina teve de solicitar a entrada n’um convento, até que o primo se formasse e podesse ganhar dinheiro pela advocacia. A viuva do guarda-livros ficára residindo no Porto, e vivia pobremente de dar lições de primeiras lettras por casas particulares.
Ernestina de Carvalho, constitucional por tradição de familia, foi a unica pessoa que no mosteiro de Arouca disse a Margarida Candida uma phrase amoravel. E só muito de fugida lh’a poude dizer, porque toda a communidade vigiava attentamente os passos das duas recolhidas, que entraram precedidas da reputação de constitucionaes.
Ernestina, no momento de abraçar Margarida Candida, segredára-lhe com solerte disfarce: «Pode contar comigo.»
Esta simples phrase foi para a sobrinha de André Pinto como que uma promessa de amisade e auxilio, que lhe deu maior coragem para o sacrificio.
Ernestina sentiu-se desde logo attraída para aquella pobre menina de Chaves, que tinha a seus olhos o duplo prestigio de ser constitucional e de o ser por amor de um homem. Bastaria a primeira circumstancia para a recommendar á condolencia de quem estava ligada por laços de parentesco á memoria de um dos justiçados de Lisboa; mas o facto de se inscrever voluntariamente no martyrologio dos constitucionaes por dedicação ao capitão de dragões Joaquim Maria de Vasconcellos, era um tão galante heroismo, que sobredourava, aos olhos de Ernestina, aquelle predicado.
No mosteiro de Arouca sabia-se, de antemão, toda a biographia de Margarida Candida.
Fôra André Pinto que informára a freira sua parenta sobre o delicto amoroso da sobrinha, historiando-o miudamente. É certo que pedira segredo, e sóror Maria das Cinco Chagas, ao receber a extensa carta do primo de Chaves, talvez quizesse guardal-o. Mas, a meio da leitura, ou os óculos se lhe começaram a embaciar ou ella achou tão monstruosamente interessante a narrativa, que reconheceu a necessidade de desabafar com alguem. Ambas as coisas seriam talvez. Sóror Maria das Cinco Chagas mandou chamar sóror Genoveva do Espirito Santo para que se encarregasse de continuar a leitura da carta de André Pinto.
Ora sempre que uma freira mandava chamar outra á puridade, havia caso grave no mosteiro, fosse de politica domestica, algum assumpto de portas a dentro, ou de politica externa, alguma noticia importante que tivesse vindo de fóra.