Mas sóror Genoveva do Espirito Santo repelliu energicamente a accusação de que se dizia victima innocente, accusando por sua parte sóror Maria das Cinco Chagas de lhe ter recommendado silencio, indo, pouco depois, metter tudo no bico á madre escrivã, que, na opinião de sóror Genoveva, era mais falladora do que uma gralha.
A phrase que Ernestina de Carvalho poude segredar disfarçadamente ao ouvido de Margarida Candida, logo no dia da chegada, deu alento á pobre menina de Chaves, porque lhe deixou entrevêr a esperança de ter uma confidente sempre que o seu attribulado espirito carecesse de expansão, e muitas vezes seria.
Quanto se enganava, porém, Margarida Candida! Fraco auxilio lhe poderia prestar Ernestina de Carvalho, sempre espionada pela communidade. A phrase «Pode contar comigo» revelava apenas um impulso de espontanea sympathia, de instinctiva condolencia, mas difficilmente poderia traduzir-se em factos, e a prova não se fez esperar muito.
Como a biographia de Margarida Candida já era conhecida no mosteiro quando a abbadeça recebeu a ordem do prelado, acompanhada de uma copia do respectivo aviso regio, para ser admittida a sobrinha de André Pinto não só ao noviciado, mas tambem á profissão, a communidade redobrou de vigilancia com o fim de não deixar aproximarem-se uma da outra as duas meninas constitucionaes.
De modo que decorreram muitos dias sem que Ernestina de Carvalho e Margarida Candida podessem trocar entre si outra qualquer phrase, tantos e tão desconfiados eram os muitos olhos e ouvidos que constantemente as espiavam.
A sobrinha de André Pinto poude reconhecer que a sua solidão n’aquelle mosteiro teria de ser maior do que no primeiro dia se lhe afigurára.
E seria realmente assim, se, passados uns quinze dias, Ernestina de Carvalho, sahindo do côro hombro a hombro com Margarida Candida, sem lhe dizer palavra, lhe não tivesse intromettido rapidamente nos dedos da mão direita um papelinho vincado em muitas dobras.
Logo que entrou na sua cella, a sobrinha de André Pinto fechou-se por dentro, e leu sôfregamente o bilhete de Ernestina de Carvalho, que lhe dizia:
«Escrevo com o meu proprio sangue e com o bico de um alfinete para lhe repetir o que lhe disse no primeiro dia: Pode contar comigo. Sou a sua unica amiga n’esta casa. Mas por isso mesmo que estamos rodeadas de inimigas, não podemos fallar, como tem visto. Resta-nos apenas o meio de trocarmos os nossos pensamentos por escripto. Mas como nos não dão papel, nem pennas, nem tinta, aconselho-lhe que se não quizer ferir-se para escrever com o seu proprio sangue, como eu agora faço, procure colhêr na cêrca algumas amoras sem ser vista, para escrever com o summo d’ellas, que produz uma tinta soffrivel. Eu pude encontrar este bocadinho de papel em que lhe escrevo; mas a menina vá arrancando algumas folhas ou margens dos livros de orações, que já lhe deram decerto, e aproveite-as para escrever-me. As suas cartas e as minhas devemos escondel-as debaixo da pedra curva no tanque da Cozinha velha. Mas é preciso todo o cuidado para não sermos vistas. Mais uma vez lhe repito, minha boa amiga: «No pouco que eu puder, conte sempre comigo.»