Este bilhete deu algum lenitivo ao coração amargurado de Margarida Candida. Não lhe promettia, como ella desejava, uma franca convivencia, sem péas e sem obstaculos, com a boa Ernestina de Carvalho, que a Providencia lhe deparára ali, no carcere conventual de Arouca. Mas dava-lhe ao menos a certeza de que sob as abobadas do mosteiro havia um coração, que comprehendia o seu sacrificio, e que o lastimava espontaneamente. Os grandes desgraçados parecem-se com os pequeninos passaros que pousam sobre um fragil ramusculo: qualquer ponto de apoio os aguenta. A vida humana conserva-se ás vezes suspensa sobre um abysmo por um tenue fio de retroz.

Margarida Candida respondeu agradecendo reconhecida a commiseração de Ernestina de Carvalho, e acceitando-a. Como era natural que acontecesse, pedia-lhe que descobrisse um meio qualquer de se corresponder com Joaquim Maria. Mas para onde? Para a cadea de Chaves, julgava Margarida, porque nada mais sabia do que se tinha passado depois da sua entrada no mosteiro. Receiava, porém, que Joaquim Maria, na qualidade de preso politico, não recebesse a correspondencia, que lhe era destinada. Lembrou-se então de que o melhor seria dirigir as cartas para a casa do Outeiro, freguezia de Cezár, pelo correio de Oliveira de Azemeis.

Pobre menina! as cartas! Se nem papel teria para escrevel-as!

Ernestina de Carvalho respondeu por sua vez que era completamente impossivel achar um meio de correspondencia com quem quer que fosse.

«Poucos dias depois de eu ter entrado no convento—dizia ella—quando ainda governava a Constituição e as Côrtes funccionavam em Lisboa, facto que cá dentro do mosteiro ninguem queria reconhecer, escrevi a minha mãe um bilhete em que lhe pedia que empenhasse o conde de Rio Maior em tirar-me d’aqui, porque as freiras me offendiam a cada momento, só porque eu pertencia a uma familia liberal e sou a noiva promettida de meu primo Jayme, estudante de Coimbra, liberal tambem. Um dia, estando á janella, vi passar um almocreve e atirei-lhe, da grade abaixo, o bilhete, embrulhado n’um crusado novo. Não sei se esse papel chegou ao seu destino; mas ou minha mãe o não recebeu ou não conseguiu arrancar-me d’este inferno. Esperei que o almocreve tornasse a passar e me trouxesse alguma resposta. Nunca mais, porem, o tornei a vêr! Foi-se arrastando o tempo com um vagar, que chega a causar desespero, até que a menina, entrando aqui, veio ser minha companheira de infortunio. Poucos dias depois da sua entrada vi passar um pastorsito. Fiz-lhe signal para que esperasse. Atirei-lhe da janella outro bilhete para minha mãe e o ultimo dinheiro que possuia, e era pouco. N’esse bilhete alludia eu ao primeiro, prevenindo o caso de não ter sido recebido, instava com minha mãe para que conseguisse a minha sahida, antes mesmo da formatura de meu primo Jayme, e contava-lhe que estava aqui outra victima como eu, mas recentemente chegada, e essa victima, escusado será dizer-lh’o, era a menina. O pastor certamente entregou o bilhete, porque tornou a apparecer d’ahi a dias, olhando muito para a minha janella. Perguntei-lhe por gestos se trazia alguma resposta. Entendeu-me, e mostrou-me um papel. Fiz-lhe signal para que esperasse, emquanto eu ia vêr se conseguia encontrar uma fita, um cordel, qualquer cousa com que podesse guindar o bilhete. Quando voltei á janella, já não vi o pastor. Sabe o que aconteceu? Da portaria tinham visto o que se passára, arrancaram ao pastor a resposta de minha mãe, porque a propria abbadeça m’a mostrou, sem m’a deixar lêr, e eu conheci a lettra. E, berrando como uma possessa, a abbadeça disse-me que nem eu tornaria a receber bilhetes de minha mãe, nem minha mãe receberia de Arouca outras noticias alem d’aquellas que a meu respeito ella abbadeça lhe quizesse mandar. Que desafôro! que descaramento! e que tyrannia! Pois isto tudo passou-se assim mesmo. O que será agora, que a façanha do Infante em Villa Franca subiu á cabeça das freiras! façanha que ellas apregoáram ao mundo, durante trez dias e trez noites, com ensurdecedores repiques de sinos. Minha pobre mãe foi atrozmente enganada quando consentiu que escolhessem para mim este convento, peior que a inquisição. Mas, quem sabe? talvez que todos os outros sejam o mesmo! Pela morte de meu tio, ficamos desamparadas, e meu primo, para frequentar a Universidade, teve de requerer um subsidio; mas eu, emquanto Jayme não se forma, preferiria ser guardadora de cabras a viver aqui recolhida, se soubesse o que isto era.»

Margarida Candida viu fugir-lhe a ultima illusão, e com ella a ultima esperança. A sua desgraça era sem remedio. Só lhe restava enviar atravez d’aquellas altas montanhas graniticas o seu pensamento, como uma ave errante, ao encontro de Joaquim Maria, dizer-lhe de longe, sem que elle a podesse ouvir, que o amava com a mesma firmesa e com a mesma dedicação.

Um anno se passou, lentamente, na absoluta ignorancia de tudo quanto houvesse succedido fóra do convento.

Ernestina de Carvalho, n’um dos bilhetes que deixara no escondrijo combinado, aconselhou Margarida Candida a que se recusasse a professar violentamente. Dizia-lhe que o costume era reunir-se o capitulo, convocado pela abbadeça, para declarar se queria acceitar a noviça como religiosa. Que se o capitulo decidia, por votos, affirmativamente, a noviça tinha de requerer ao prelado que nomeasse um commissario para proceder ao interrogatorio, a que se chamava a exploração de vontade. No dia em que o commissario chegava, a noviça era posta em plena liberdade, fóra da porta principal do mosteiro, e ahi interrogada sobre se era a mesma signataria do requerimento, se o fizera sem pressão e violencia ou se havia sido persuadida, indusida ou constrangida a professar o estado de religiosa.

Margarida Candida, que ignorava todas estas circumstancias, ficou, desde o momento em que as conhecêra, firmemente resolvida a assignar o requerimento para ter occasião de declarar alto e bom som ao commissario que era constrangida a professar pela coacção de André Pinto. D’este modo, conseguiria o seu fim na presença do commissario, porque o requerimento tinha pouco valor: se ella se recusasse a assignal-o, facilmente poderiam falsificar-lhe a assignatura. Melhor seria pois mostrar-se submissa para ter occasião de que o commissario podesse ouvir as suas categoricas declarações.