Chegando a Aveiro, encontrou o irmão no mesmo estado de torpor, que dia a dia o ia definhando.

Joaquim Maria passava a maior parte do tempo no catre, d’onde apenas sahia por instancias de frei Simão. Mas assim que o frade se ausentava, Joaquim Maria voltava para o catre.

O cirurgião da cadeia prescrevia-lhe uma therapeutica reanimadora. Vinham os remedios, e o doente emborcava-os da janella a baixo.

Mal tocava nos alimentos. Tinha um fastio mortal.

Durante o dia cahia por vezes n’um langor em que sonhava meio-accordado. Não dormia, e comtudo perdia o conhecimento de si proprio. Mas velava as noites n’uma insomnia tranquilla, muito lucido, pensando em Margarida, e crendo que lhe seria permittido encontral-a no ceu,—n’um mundo sydereo onde a Providencia devia compensar os tristes e affligidos.

Á volta de Arouca, frei Simão procurou, com a facilidade dos animos fortes, incutir alento ao irmão, insinuando a esperança de que a má noticia vinda de Chaves teria tido apenas em vista aggravar a sua tortura.

Um espirito menos corajoso que o de frei Simão haver-se-ia traído pelas lagrimas, pela sentimentalidade expansiva que involuntariamente vae até revelar uma verdade, que se desejava encobrir.

Mas nunca a esperança pareceu aquecer tão sinceramente o coração do frade como n’aquella hora em que elle era o primeiro desilludido. A cada mentira piedosa com que procurava galvanisar o doente, correspondia, sem que o semblante o denunciasse, o pungir de uma dor intima, e profunda.

Um mez depois, Joaquim Maria era um homem irremediavelmente perdido. O cirurgião disse-o a frei Simão de Vasconcellos, que sobejamente o sabia.

O proprio doente tinha a consciencia do seu estado, porque abruptamente pediu ao irmão que o ouvisse de confissão pela ultima vez.