Frei Simão não se mostrou abalado. Escutou impassivel. Joaquim Maria recordou serenamente todos os actos da sua vida, que revelavam a limpidez de uma alma honesta. Referindo-se á perseguição politica de que era victima, disse ao irmão:

—Tudo perdôo ao homem, que me reduziu a esta desgraça. Morro sem odios, e certo de que Deus terá compaixão da minha alma. Sorri-me até a ideia de, perseguido pelos homens, ir descançar na paz eterna da morte. Ao confessor não tenho mais que dizer, mas resta-me fazer ainda um pedido ao irmão e ao amigo.

—O que é? perguntou frei Simão, levantando-se com subita energia, como se adivinhasse o que Joaquim Maria lhe queria dizer.

—Não penses em vingar a minha morte, Simão, porque sou eu o primeiro a perdoal-a. Mas peço-te que procures arrancar a um infame supplicio a alma torturada de Margarida. Se algum dia a liberdade tornar a raiar n’este desgraçado reino, peço-te que te lembres de Margarida na hora do triumpho. Se a morte a não tiver libertado, liberta-a tu, corre ao mosteiro de Arouca, faze abrir de par em par as portas do carcere, e dize a Margarida: «Meu irmão morreu amargurado pela ideia de ter sacrificado o mais leal dos corações; cumpro a sua vontade vindo quebrar os grilhões que tão barbaramente escravisaram a martyr.» Para mim, Simão, não resta a menor duvida de que André Pinto obrigou Margarida a professar. Conheço de sobra a obcecação feroz dos absolutistas de Chaves, d’elle principalmente. E tenho a plena certeza de que Margarida não recuaria perante o sacrificio de toda a sua vida na hora em que a abandonasse a ultima esperança do seu dedicado amor. A noticia deve pois ser verdadeira.

Frei Simão tinha ouvido o irmão com essa attenção placida, mas absorvente, que é apanagio dos fortes. O seu olhar era vivamente incisivo, mas as linhas da physionomia não passavam pela menor crispação nervosa.

—Juro-te, disse elle com decisão, que se morreres primeiro do que eu, o que só a Deus pertence saber, hei de cumprir religiosamente o teu legado. A minha primeira homenagem á liberdade, se ella de novo felicitar este paiz, será a redempção da mulher que tão nobremente amaste. E agora, alma justa e boa, te absolvo, em nome de Deus, de tuas faltas veniaes. Eu, misero peccador, sinceramente rogo ao Todo Poderoso que me ensine a imitar o teu exemplo.

E crusando sobre a fronte pallida de Joaquim Maria a benção absolutoria, proferiu em voz baixa as palavras do ritual.

Depois despediu-se, e sahiu. Sentia-se oppresso, precisava respirar o ar puro que vinha da barra em brandas lufadas, as quaes passavam sobre a ria sem a fazer ondular.

Junto ao caes, um hiate de cabotagem parecia dormir immovel sobre a agua espelhante. E um barco de pesca deslisava suavemente, aproado ao oceano, esbatendo-se na claridade olympica da atmosphera maritima.

A quietação da paizagem e a luz gloriosa do ar contrastavam singularmente com a dolorosa concentração, que opprimia o coração de frei Simão de Vasconcellos n’uma treva de noite funda.