—Teu irmão não me conhece ainda! exclamou elle exaltadissimo.

E nunca mais voltou a passar os serões do domingo em casa de Frederico Pinto.

Não contente com isto, aconselhou Anna de Vasconcellos a que voltasse para a casa do Outeiro.

—Prefiro a tua ausencia, disse-lhe elle, a ter que supportar a idea de que por tua causa me não fazem inteira justiça.

A pobre Anninhas, muito arrependida da inconfidencia, procurava desculpar o irmão, e resistia, com lagrimas nos olhos, ao alvitre de voltar para a casa do Outeiro ficando José Maximo no Porto.

Á força de rogos carinhosos conseguiu ella que José Maximo não insistisse pelo regresso a Cezár, mas não poude obter d’elle que voltasse aos serões do Campo de Santo Ovidio.

José Maximo tornára-se sombrio, concentrado. A esperança abandonava-o. Escrevia a D. Anna de Vasconcellos longas cartas, cheias de desalento, que todas as noites ella içava por um cordão de retroz da rua para a janella. Elle considerava-se uma alma incomprehendida pelo commum das pessoas, habituadas a medir o espirito humano pela bitola da vulgaridade egoista. Mostrava-se desacoraçoado do futuro, que previa «fertil e estrondoso em desgraças.» Este era o diapasão constante da sua correspondencia amorosa. «Sinto remorsos, escrevia elle uma vez, de ter feito a infelicidade de duas mulheres que eu adoro: minha mãe, e tu. O meu amor tem o triste condão da lepra: é contagioso na desgraça. Perdoa-me, bella alma, pura como as estrellas e delicada como as flores, perdoa-me o ter-te infelicitado só porque o meu coração te escolheu para amar-te entre todas as mulheres.»

Anninhas lia estas desalentadas cartas, e chorava. Ella mesma, habituada á linguagem sombria de José Maximo, começava a tremer pelo futuro, receiava-o.

Assim decorreram dois annos n’uma tortura de amor, cujas angustias a imaginação ardente de José Maximo parecia comprazer-se dolorosamente em augmentar.