Atravessou em poucos passos a rua, e caminhou direito ao vulto.

Reconheceu-o. Era o estudante de Coimbra, o pintalegrete do arraial de Mattosinhos, que, não contando certamente com tão audaz arremettida, recuou dois passos.

José Maximo perfilou-se com elle, mediu-o sobranceiramente de alto a baixo, e disse com desabrida provocação:

—Ah! é o mesmo palito das sécias, que eu vi hoje no arraial de Mattosinhos!

Manuel Rodado não lhe respondeu; mas procurava affirmar-se nas feições do homem que o insultava.

José Maximo tinha-o visto de dia; foi-lhe, portanto, facil reconhecel-o.

Manuel Rodado, que o via pela primeira vez, apenas podia valer-se do auxilio do luar, para fixar-lhe a physionomia.

Se não fosse a lua, não o teria conseguido, porque as ruas do Porto eram n’aquelle tempo tenebrosas por falta de illuminação publica. Atravez de um «titulo» das Ordenações enxergamos ainda hoje a escuridão das antigas noites portuguezas, porquanto esse «titulo» dispõe: «E os que forem achados depois do sino (de recolher) sem armas, e com candea accêsa, ou lanterna, ou outro lume, indo pela rua para algum certo logar... não serão presos, nem pagarão pena alguma.»

Ora só tempo depois de ter occorrido este encontro no Campo de Santo Ovidio ordenou o governo, por decreto de 5 de outubro de 1824, que a cidade do Porto e Villa Nova de Gaya fossem illuminadas por candieiros de azeite todas as noites em que não houvesse luar, consignando-se a esta despeza o rendimento da «ponte de barcas» e a imposição de dois réis em cada arratel de carne de boi e de porco.

—O que faz aqui? perguntou José Maximo com maior desabrimento.