Os Fados chegaram a Coimbra levados pelos estudantes, como diz Ernesto Vieira; e ao Minho, levados, como diz Camillo, pelos jovens fidalgos que mais ou menos frequentavam a capital e queriam ir dar-se ares extravagantes de marialvas e fadistas nas suas terras.
Tambem foi Lisboa que exportou o Fado para as provincias ultramarinas.
Ha o Fado de Loanda, composto sobre motivos de cantos indigenas por um maestro angolense, já fallecido, que veio á Europa estudar musica por conta da sua provincia.
Não deve passar sem reparo o facto de Lacerda, na 4.ᵃ edição do seu Diccionario, feita em 1874, ter citado o Fado de Lisboa e o de Coimbra; e de na 5.ᵃ edição, de 1879, ter substituido—Coimbra—por—Cascaes.
Esta alteração corresponde certamente a um facto chronologico: é que a praia de Cascaes, mais proxima de Lisboa que a cidade de Coimbra, deve ter recebido o Fado por contacto directo com os marialvas e fadistas da capital.
Coimbra recebeu-o mais lentamente, levado por um ou outro estudante do sul em gerações successivas.
A guitarra e o Fado tiveram que luctar, nas serenatas da academia, com a tradição do «machinho», de que tanto se falla na Macarronea, e da viola; e com as canções amorosas ou populares, que estavam arraigadas nos costumes coimbrãos.[9]
José Doria ficou celebre como tocador de viola.
João de Deus, que era algarvio, e tinha, por isso, que passar algumas vezes em Lisboa, dava lindas serenatas de viola no Penedo da Saudade, cantando improvisos seus ou canções do povo, mas não tinha sympathias pelo Fado. Elle mesmo o confessa: «nunca pensei em Fado, nunca o apreciei, nem o toquei: liguei-o desde o principio ás mulheres de má vida, e de ahi a minha especie de aversão a tal musica; mas, aqui, ouvindo-o a estudantes, não me repugnou fazer-lhe umas tantas quadrinhas, e continuar-se-ha...»[10]
Depois, na vida de Lisboa, familiarisou-se com a guitarra e, portanto, com o Fado, a tal ponto que estudou um systema de melhorar a pontuação das guitarras.[11]