É verdade que nas Epopeas da raça mosarabe[8] fallando da xácara, usada pelos xaques ou ciganos (d’onde veio a denominação xácara ou xacarandina) diz que o nosso Fado é «uma degeneração da xácara, que pelas transformações sociaes veio a substituir a canção de gesta da idade media.»
Ora nós seguiremos outro caminho; não nos demoraremos a apalpar hypotheses.
Apenas mencionaremos os factos, e o que parece certo é que o Fado, tal como hoje o conhecemos, nasceu em Lisboa, depois da primeira metade do seculo XIX, e que d’aqui irradiou para as provincias, apenas com o caracter de «moda» de invenção moderna, o que exclue a hypothese de uma antiga filiação arabe.
O erudito professor Ernesto Vieira, no seu Diccionario musical, chegou ás seguintes conclusões, que nos parecem exactas:
1.ᵃ O Fado só é popular em Lisboa: para Coimbra foi levado pelos estudantes, e nem nos arredores d’estas duas cidades elle é usado pelos camponezes, que teem as suas cantigas especiaes e muito differentes.
2.ᵃ Nas provincias do sul, onde os arabes se conservaram por mais tempo e os seus costumes e tradições são ainda hoje mais vivos, o Fado é quasi desconhecido principalmente entre a gente do campo.
3.ᵃ Nenhum livro ou escripto anterior ao actual seculo (XIX) faz a menor referencia a esta musica popular.
4.ᵃ A poesia com que, invariavelmente quasi, se canta o Fado é uma quadra glosada em decimas, forma poetica d’uma antiguidade pouco remota, de uma origem nada popular e sem relação alguma com a poesia arabe.
Effectivamente, o grande fóco de irradiação do Fado é Lisboa; mas a provincia, tanto ao sul como ao norte, apenas o acceitou como um dictame da moda, que não logrou absorver e substituir os cancioneiros provinciaes.
Dá-se com o Fado e com outras canções, que em Lisboa cairam no gosto publico, o mesmo facto que se dá com os figurinos, as toilettes, cujo modelo a capital exporta para o interior do paiz: apparecem na provincia alguns exemplares, mas a maneira de vestir propria de cada região continúa subsistindo tradicionalmente.