No romance do Padre João Candido de Carvalho (vulgarmente Padre Rabecão) Eduardo ou os mysterios do Limoeiro, publicado em 1849, não obstante ser uma chronica muito interessante dos costumes populares de Lisboa n’aquelle tempo, e começar por uma scena de taberna na Madragôa (hoje rua de Vicente Borga) não apparece a palavra Fado, comquanto haja uma referencia a fadista. É a seguinte:

«Ao canto opposto existia uma outra banca, como para guardar symetria áquella, de que fallei; e sentado a ella estava um mancebo de 19 a 20 annos, de jaqueta, chapeu á christina, cinta de seda enrolada á fadista, calça de cotim enlameada, fumando no seu charuto de cinco réis, que accendia repetidas vezes, emquanto acompanhava as fumaças com outros tantos gollos de uma bebida quente que tinha mandado preparar por mais de uma vez, e em cada vez, que a pedia por ter esgotado o copo, repetia—Oh patrão! dê-me outra Francisquinha.»

É o typo do Fadista, descripto em 1849, a beber vinho na taberna, usando do calão e do traje da sua classe. Mas o Padre Rabecão, que viu o Fadista, não ouviu o Fado, nem a elle se refere nunca em nenhum dos quatro tomos do seu romance.

Este facto leva-nos a formular uma hypothese, que opportunamente desenvolveremos.

Tem-se dito muitas vezes que a origem dos nossos Fados é arabe.

Theophilo Braga inclina-se a esta opinião quando diz «que os cantos conhecidos pelo nome de Huda, pelo Arcipreste de Hita, são ainda os nossos Fados, que usados pelos tropeiros do Brazil coincidem com a descripção feita pelo arabista Caussin de Perceval.»[6]

O Arcipreste de Hita, de que Theophilo Braga deu varias composições no jornal litterario Era Nova e de que Amador de los Rios faz menção na Historia critica da litteratura hespanhola, compoz cantigas para cegos andantes e para tunas escolares; parecendo que tambem escrevera canções populares em arabe, o que aliás é contestado por alguns escriptores.

Mas, como quer que seja, obedeceu manifestamente á influencia arabe, ainda quando se dè por assente que não chegou a escrever n’esta lingua alguns dos seus cantares.

Theophilo Braga, filiando nos Hudas os nossos Fados, acceita-os, pelo menos, como um vestigio d’aquella mesma influencia.

E é ainda mais explicito quando diz: «As danças portuguezas participam dos caracteres provenientes da nossa situação: sensuaes, como os Fados, os Batuques recebidos dos arabes e das possessões africanas, e as Modinhas recebidas das colonias do Brazil.»[7]