Tal é o testemunho de uma intelligente e instruida mulher franceza, que reconheceu em os nossos Fados um caracter privativo, uma expressão nacional, a alma de um povo, emfim.
Igual impressão recebeu um viajante hespanhol, que em novembro de 1896 escreveu, no jornal A Voz do Commercio, a seguinte apreciação:
«Nada mejor como la música refleja el caracter y la manera de ser especial de los pueblos. Un filósofo aleman decia: daz-me los adagios de un pais cualquiera y la dictaré leyes. Pues bien, yo dispensaria los adagios y me sobraria con la música. España con sus jotas y sus peteneras y Portugal con su rico fado son y serán siempre dos naciones antitéticas. La jota pide luz, castañuelas y vino en jarro. La petenera pide algomas: abrazos de muger que ahoguen, besos que quemen neurosis debilitantes y por encima de todo esto cañnitas de manzanilla bajo el toldo de una parra. En cambio, «o fado» pide silencio absoluto, penumbra misteriosa y una cierta dósis de tristeza en el corazon. Con diferencias tan marcadas antojáseme tarea fácil legislar para los dos paises sin mas que consultar cuadernos de música popular.»
Só os escriptores da actualidade, tanto estrangeiros como nacionaes, fazem menção do Fado no sentido de canção popular.
Em um livro de memorias, aliás muito interessante,[5] e relativo á primeira metade do seculo XIX, diz o seu auctor fallando do enthusiasmo com que em Lisboa foi recebida a Polka:
«Não só desthronou o Solo inglez, e fez prescrever a Gavota, como contribuiu tambem para a emigração do Pirolito—da Maria Cachucha—do Beijo á Saloia—do Rei Chegou e do Passarinho Trigueiro. Creio mesmo que só então deixou de cantar-se a antiga e popular romança—A Nau Cathrineta, uma especie de—papão vai-te embora—com que os avós, desde o principio do seculo, vinham entretendo os serões e... acalentando os netos.»
Nem uma unica palavra de referencia aos Fados.
Mencionando a litteratura de cordel n’essa epoca, diz o mesmo auctor:
«Ali (obras do Arco da rua Augusta) entretinham-me as toscas gravuras, quasi em papel pardo, do João de Calais—da Imperatriz Porcina—da Cornelia Bororchia—e da Formosa Magalona, que, á guiza de estendal de roupa, se baloiçavam bifurcadas no cordel que, de lado a lado, se prendia ao tapume com que estava vedada a passagem do Terreiro do Paço para a rua Augusta.»
Tambem nenhuma referencia aos Fados, que hoje se vendem em folhetos, muitos d’elles com gravuras toscas (especialmente os que se referem a grandes crimes ou outros acontecimentos de sensação) e que são apregoados nas ruas.