Não lhes chama Fado, nem podia chamar, porque essa designação não era usada ainda.[3]
O erudito escriptor portuense sr. Rocha Peixoto escreveu no periodico Nova Alvorada um artigo a que deu o titulo de O cruel e triste fado e em que synthetisou a relação psychica existente entre o Fado, canção, e a orientação historica do povo portuguez.
«... o fado—pondera esse escriptor—e o que n’elle se diz de sonho, de sombra, de amor, de ciume, de ausencia, de saudade e principalmente de conformação com o cru e negro imperio do destino, eis o que exprime dramaticamente a feição da alma nacional. O fado é portuguez, é toda uma mentalidade, é toda uma Historia».
Apenas o sr. Rocha Peixoto se deixou arrastar por um flagrante anachronismo quando diz que o infante D. Miguel de Bragança batia o fado.
Oliveira Martins, que muitas vezes se enredou em salientes anachronismos, foi mais cauteloso quando poz a canção Negro melro na bocca da plebe miguelista.
Certamente que o povo, poeta das ruas, improvisador espontaneo e inconsciente, costumaria cantar em publico as suas desgraças e as da patria, como faziam, em mais alta graduação de merito litterario, os poetas cultos; ou repetiria as trovas d’estes poetas quando ellas exprimiam as dores da existencia individual ou o luto pelas desgraças e dissabores nacionaes.
Sabemos que no seculo XVI se generalisaram na voz do povo as canções que lastimavam a ingente derrota do rei e do exercito em Alcacerquibir. Miguel Leitão de Andrade, na Miscellanea, traz uma d’essas canções, lettra e musica, mas dá-lhe o nome de romance; e tudo faz crêr na sua origem popular.[4].
A estas «toadas tristissimas» não se chamava Fados; nem chamou a nenhuma outra do mesmo genero até depois de 1840.
Hoje ainda os viajantes estrangeiros se impressionam profundamente com a melancolia e dolorida doçura das nossas canções populares, mas já todos as designam pelo nome de Fados.
Madame Adam, no seu livro La patrie portugaise (1896), escreve: «Jovens guitarristas, agrupados em bandos, cantam e acompanham o Fado, a canção que se traduz pela palavra «Destino» e que é puramente lusitana. Todos os motivos do Fado são portuguezes. Ha Fados para todos os acontecimentos da vida, para o amor, especialmente; e para a politica tambem.»