Pois quem do Fado se tira

Não sabe o que é viver bem.

O povo julga-se relativamente feliz na fruição d’esses prazeres que o Fado arrasta comsigo. Assim elle pudesse prolongal-os! E, saboreando-os, encarece-lhes a voluptuosidade tentadora, que seria capaz, julga elle, porque é o melhor que pode gosar, de abalar a santidade do Papa:

Se o Padre Santo soubesse

O gosto que o Fado tem,

Viria de Roma aqui

Bater o Fado tambem.

O povo de Lisboa, limitado ás ruas e ás tabernas da cidade, e, uma vez por outra, quando muito, ás hortas dos arrabaldes, encontra na guitarra, nas cantigas do Fado, a sua melhor distracção.

O vinho da taberna pode leval-o até á embriaguez, até ao crime, como não raro acontece; mas quando não vai tão longe, suggere-lhe a vaga melancolia de uma vida contrariada de privações, produz no povo aquillo a que Camillo Castello Branco chamou com feliz propriedade a sensação nervosa, o soluçado requebro das saudades do Vimioso.

Nas aldeias, especialmente no norte do paiz, a vida dos campos, muito laboriosa e sadia, inspira as canções vivazes, movimentadas, que a viola chuleira acompanha n’um andante batido, repenicado. Só o espirito de imitação, conduzido pelos fidalgos, pelos estudantes e pelos bohemios, principalmente os cegos andantes, tem introduzido o Fado alfacinha nas provincias do norte, que o cantam sem o comprehender, porque as condições de vida são ahi muito differentes.