É tambem por espirito de imitação que o Fado se aristocratisou na guitarra dos marialvas e no piano das salas, como um producto exotico violentamente aclimado, uma planta d’estufa, que parece chorar pelo seu clima nativo—o clima dos bairros infamados e das ruas suspeitas.
É preciso que o marialva viva fóra da sociedade em que nasceu, identificando-se com o povo, como o conde de Vimioso, para comprehender e sentir o Fado; a não ser isto, só o comprehende e sente um bohemio de talento, um poeta torturado como D. José de Almada, de quem Julio Cesar Machado escreveu: «Coisa curiosa: ninguem, a exceptuarmos o conde de Vimioso, cantava o Fado como elle. O Fado é a melancolia. Por baixo dos seus sorrisos, gracejos e gargalhadas d’elle, havia lagrimas sempre...»
Só um ou outro homem bem nascido, o Vimioso, o Almada, tem conseguido celebrisar-se de guitarra na mão, por condições especiaes da sua existencia; mas todo o homem do povo é capaz de pôr lagrimas na voz para cantar o Fado, porque cada classe, como cada raça, possue uma gamma especial para interpretar as suas paixões, os golpes crueis do seu destino.
D. José d’Almada e Lencastre
Escriptor e guitarrista primoroso
(Fallecido em junho de 1861)
Já vimos como ainda antes de estabelecida a denominação de Fados, os viajantes estrangeiros se impressionaram com as canções dolentes, na lettra e na musica, do povo portuguez.
É que sempre temos sido um povo melancolico por effeito das condições da nossa propria existencia e de uma educação tradicional.
Vivemos n’um paiz confrangido entre as montanhas e o mar: as montanhas criam as povoações alpestres e os pastores solitarios; o mar educa os marinheiros pensativos e concentrados, que serenamente jogam a vida contra a furia das tempestades na vastidão immensa das aguas.