Nascemos de um grupo de lusitanos, que tiveram de soffrer o choque de povos poderosos, de immigrações torrenciaes e, por ultimo, de fazer a guerra contra os mouros, uma guerra de fanatismo, estimulada pelo odio de raça e pelo sentimento religioso, que é a mais cruel e intransigente de todas as guerras.
Depois fomos navegadores em mares desconhecidos e conquistadores em plagas remotas, onde a nostalgia cortava o coração saudoso.
Ouvimos o canto monotono e languido do preto em Africa. De lá parece havermos trazido o lundum, que se coadunou com o nosso genio melancolico, e que tem sido certamente a canção popular mais aproximada do Fado actual. A expressão de Tolentino «o doce londum chorado» dá bem a impressão do Fado choradinho de nossos dias.
O excesso de religião pesou sobre nós com todos os seus terrores inquisitoriaes: o carcere, a tortura, o auto de fé.
Vivemos mais de meio seculo opprimidos pelo jugo castelhano, a que só alguns fidalgos se mostravam affeiçoados por vil cortezanismo.
Soffremos, no principio do seculo XIX, invasões armadas que exigiram um esforço duro para reconquistarmos a liberdade ameaçada.
Tivemos violentas luctas partidarias, que accendiam odios figadaes entre os individuos de uma mesma familia.
Depois da Regeneração, a vida publica tornou-se mais calma, mas os maus processos de administração trouxeram os desiquilibrios orçamentaes, as difficuldades financeiras, a falta de credito, os embaraços economicos, que dão um mal-estar geral.
Como ultima desgraça, empobrecemos.
E n’isso estamos.