A nossa lingua é triste, exprime melhor a dolencia, o soffrimento moral, do que os pensamentos alegres e vivos.
Falta-lhe o colorido e o gorgeio de outros idiomas neo-latinos: do francez, que é uma lingua de passaros; do italiano, que é uma lingua de musicos. Falta-lhe o vigor varonil do hespanhol, lingua aliás menos harmoniosa do que as outras duas, mas que tem a bravura como compensação.
Orgulhamo-nos de possuir a palavra «saudade», que exprime melhor do que qualquer outro vocabulo das linguas estranhas o doer da ausencia, isto é, um pensamento triste, consolação unica das almas inconsolaveis por effeito de uma separação dolorosa.
Escreveram alguns estrangeiros que somos um povo de namorados.
Este conceito sôa como diagnostico de uma psychose nacional; exprime a nossa sensibilidade doentia excessivamente vibratil. Mas o amor dos portuguezes é sempre uma tortura, nos poetas e nos outros.
D’ahi vem que toda a nossa poesia lyrica é soluçante e dolorida, desde Bernardim Ribeiro e Camões até Soares de Passos e Antonio Nobre; facto que tambem se reconhece nos poetas bohemios como Bocage, que perde o seu tom alegre e esturdio logo que roça pelo lyrismo subjectivo.
O povo pertence á mesma raça dos poetas, vive e respira no mesmo meio geographico e social e, á parte a educação litteraria, soffre como elles.
Portanto tambem canta como elles, ferindo a nota da tristeza, queixando-se do seu destino.
É ainda mais desgraçado, e por isso é mais triste.
Não é preciso, para explicar o estado permanente da alma nacional, exagerar a influencia arabe, nem filiar n’ella, exclusivamente, a melodia plangente do Fado.