É certo que no Alemtejo o rythmo das canções populares é lento e arrastado, no que pode admittir-se até certo ponto o effeito de uma occupação arabe mais longa do que nas provincias do norte.
Mas esse rythmo não chega a ser choroso e cortante como o dos Fadinhos, nem tem a mesma expressão de melancolia acabrunhada, esmagadora, que distingue o Fado.
Em todo o paiz ha vestigios «dos mouros», como diz o nosso povo. São communs a todas as provincias as lendas das mouras encantadas. No norte, ainda apparecem as janellas de rótulas; no Alemtejo e Algarve os biôcos das mulheres.
Sem embargo, o Fado não está em todas as provincias de Portugal na alma do povo, nem por intuição, nem por tradição. Vai aonde o levam; e algumas povoações menos progressivas, acreditando aliás nas lendas mouriscas, repellem o Fado, preferem-lhe as suas canções locaes,[12] com que foram embaladas desde a infancia, e que traduzem melhor a tranquilla resignação, a paz saudavel da sua lide agricola.
O baluarte do Fado continua a ser, além de Lisboa, as tabernas dos seus arredores e as do Ribatejo, frequentadas por maltezes, toureiros, cocheiros e almocreves que estão em constante communicação com a capital.
Mas nem ahi mesmo tem entrado na vida dos campos.
A guitarra, o instrumento de melhor apropriação ao Fado, é que nos veio dos arabes; essa sim. É filha do alaude musulmano, e foi naturalmente conservada pelos jograes mouriscos. Alguns estrangeiros chamam-lhe ainda «guitarra mourisca» para a distinguir do instrumento a que dão o nome de—guitarra—e que não é outra cousa senão o violão ou a viola franceza.[13]
Mas não se diga que a guitarra, por via da sua origem, trouxe comsigo a musica arabe, e que a melodia do Fado proveio d’esta dupla origem.
Parece ter sido no seculo XVIII que reviveu entre nós a tradição arabe da guitarra: pelo menos foi em 1796 que Antonio da Silva Leite publicou um methodo, considerado hoje como o primeiro que se imprimiu em Portugal, certamente na espectativa de encontrar mercado favoravel.
Não padece duvida que n’esse seculo a guitarra serviu entre nós para executar «sonatas» e acompanhar «modinhas», muitas das quaes não glosavam assumptos tristes, nem cantavam a fatalidade amarga do Destino.