Instrumento suave e relativamente perfeito, a guitarra adapta-se com facilidade aos requebros e á ternura das canções galantes e sentidas.
Fez a sua epoca de «sonatas» e «modinhas» e identificou-se depois com o Fado por um conjunto de disposições favoraveis para os soluços do amor, para os gemidos de desventura.
Mas os proprios fadistas, na sua ancia de encontrar um instrumento que exprimisse ainda melhor toda a doçura gemente do Fado, abandonaram algum tempo a guitarra quando appareceu o bandolim.
Tanto elles não tinham a intuição de que o Fado e a guitarra fossem irmãos gemeos.
A guitarra luctou então pela existencia e procurou combater o seu rival bandolim. Alindou-se; tratou de melhorar-se. Mudou a sua afinação, que era de cravelhas e chave, para a elegante chapa-leque; os seus pontos que eram, em algumas, 12 e, em outras, 14, passaram a 17. As cordas tambem de 10 passaram a 12. E foi assim, que vendo em litigio o monopolio do Fado, a guitarra se habilitou a executar trechos de operas, como acontecia nas mãos de João Maria dos Anjos.
A toada do Fado obedece a um padrão, a um typo musical, descripto segundo a technica pelo erudito professor Ernesto Vieira:
«Existe uma grande quantidade de melodias sobre o fado, e a cada momento os cantores populares inventam outras; mas todas vasadas no molde primitivo que é o seguinte: um periodo de oito compassos em ²⁄₄, dividido em dois membros iguaes e symetricos, de dois desenhos cada um; preferencia do modo menor, embora muitas vezes passe para o maior com a mesma melodia ou com outra; acompanhamento de arpejo em semicolcheias feito unicamente com os accordes da tonica e da dominante, alternados de dois em dois compassos.»
O fadista chama ao simples acompanhamento do canto: Fado corrido.
Mas fora d’este caso, quando não ha cantor, o guitarrista «phantasia muitas variações sobre a mesma melodia», abandona-se á inspiração de momento, borda floreios e ornatos.
Referindo-se em geral ás nossas canções, diz Theophilo Braga: «A pobreza ou simplicidade da Melodia portugueza provém-lhe da falta de melismos, ornatos, floreios estranhos, como acontece com as melodias hespanholas, muito pittorescas, mas cheias de ornatos dos arabes.»[14]