Ora, esta theoria applicada ao Fado, na sua mais pura e inicial expressão, que é o canto (porque as variações são artificios que resultam de motivos primarios) exclue por sua vez a cooperação ornamental dos arabes na melodia do Fado, que é simples, ingenua, corrida.
E tanto assim é que o sr. Theophilo Braga, descrevendo em outros logares o typo do Fado, mostra-o como sendo «uma longa narrativa, entremeiada de conceitos grosseiros e preceitos de moralidade, com uma forma dolorosa, observação profunda, graça despretenciosa, monotonia de metro e de canto, que infundem pesar quando os sons saem confusos do fundo das espeluncas. O rythmo d’este canto é notado com o bater do pé e com desenvoltos requebros.»[15]
Fado do Marinheiro
(Este Fado é o mais antigo de que diz ter tido conhecimento o velho guitarrista Ambrosio Fernandes Maia)
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A monotonia de metro e de canto no Fado, como o douto professor observou, contém-se justamente nos limites de simplicidade de todas as melodias populares portuguezas; vê-se, portanto, que os arabes, que deixaram vestigios de ornato na musica hespanhola, apenas deixariam no rythmo de algumas das nossas canções um tenue vestigio da sua dominação, e que o Fado nasceu independentemente d’essa remota influencia.
Quer-nos parecer que os Fados da actualidade estão mais proximos, na indole como no tempo, dos lunduns africanos do que dos hudas arabes.
Impressionado pela singela estructura musical do Fado corrido, notou o professor Rœder, director do Conservatorio de Boston, que nos Fados portuguezes a poesia era mais bella do que a melodia.
Este auctorisado depoimento testemunha ainda em favor da exclusão do elemento arabe no Fado.