Deve ter sido amante do ultimo conde, se o foi, e talvez do facto de ser cigana proviesse, por confusão, o motivo de se haver julgado que a Severa pertencia á mesma raça.

N’um apontamento que Bulhão Pato deu a Urbano de Castro, o illustre poeta da Paquita diz sempre «Maria Severa», o que faz crêr que «Severa» era sobrenome, adoptado e popularisado como «nome de guerra.»

Palmeirim conheceu a Severa, foi vel-a com o interesse de quem visita uma celebridade. Morava ella então no Bairro Alto. E parece que a encontrou n’um momento de tédio, em que ella o recebeu mal, e elle ficou desagradavelmente impressionado.

Conta Palmeirim, textualmente:

«Quando entrei em casa da Severa, modesta habitação do typo vulgar das que habitam as infelizes suas congéneres, estava ella fumando, recostada n’um camapé de palhinha, com chinellas de polimento ponteadas de retroz vermelho, com um lenço de seda de ramagens na cabeça, e as mangas do vestido arregaçadas até ao cotovello.

«Era uma mulher sobre o trigueiro, magra, nervosa, e notavel por uns magnificos olhos peninsulares. Em cima de uma mesa de jogo estava pousada uma guitarra, a companheira inseparavel dos seus triumphos; e pendente da parede (sacrilegio vulgar nas casas d’aquella ordem) uma pessima gravura, representando o Senhor dos Passos da Graça!

«Antes da minha apresentação, que foi rapida, e sem cerimonia, a Severa que logo conheceu não ser eu um official do officio, isto é um fadista emérito, como quasi todas as pessoas que lhe eram apresentadas, mimoseou-me com uma saraivada de injurias, a que eu repliquei de prompto, dando logar a uma sabbatina pouco edificante, de que me sai como defendente a contento d’ella propria, que não esperava encontrar n’um liró um contendor capaz de lhe replicar ao pé da lettra».[54]

Tudo isto se poderá explicar, na Severa, por um irritante orgulho de celebridade e uma longa pratica de impudores de classe.

Aquella mulher, que um fidalgo portuguez notára e distinguia, e que, de guitarra na mão, era enthusiasticamente applaudida por muitos outros, vendo crear-se á volta do seu nome uma atmosphera estonteante de vaidade, devia por vezes achar-se contrariada fóra d’esse meio que a celebrisára, e que representava para ella o enlevo, o sonho, a poesia na desgraça; devia achar-se constrangida na presença de pessoas que não eram fidalgos, nem toureiros, nem marialvas, nem guitarristas, nem cantores celebres do Fado.

E nas horas de aborrecimento, o seu caracter resoluto, o seu orgulho explosivo, a sua lingua solta e ponteira, encontravam como desabafo o vocabulario torpe que ella aprendêra desde pequena, talvez com a propria mãe.