Na hora em que Palmeirim a viu e ouviu, não estava ao pé d’ella o conde de Vimioso a exercer a suggestão da grandeza e da fidalguia; faltava ali o prestigio que vinha das noites de luar, das esperas de touros, das serenatas de Fado, das aventuras esturdias, dos applausos da multidão.

Tambem os grandes actores perdem toda a sua grandeza fóra do palco, quando vistos na realidade da existencia.

Falta-lhes o fogo divino, a commoção, a arte; falta-lhes a luz da ribalta que os illumina; a illusão que lhes é emprestada pela caracterisação e pelo scenario; falta-lhes o enthusiasmo do publico, que os admira e que os applaude.

A Severa era n’essa hora uma celebridade arregaçada até ao cotovello, mergulhada em silencio como a guitarra que jazia sobre a mesa, abatida na solidão e na ausencia do Vimioso.

Comprehende-se a sua revolta, o seu mau humor irritado, como tambem se comprehende, embora pareça paradoxal, que sempre que o conde queria dominal-a como se prende uma ave n’uma gaiola, ella lhe fugisse para saborear a liberdade reles do alcouce, que lhe dava orgulho, porque d’ali subira á celebridade, ali a iam procurar os bohemios fidalgos e famosos, desejosos de ouvir a sua guitarra e a sua voz enternecida soluçando o Fado.

O sr. Miguel Queriol conta no artigo do Popular quando e como viu a Severa em casa do conde de Vimioso.

Foi uma noite, á saida de S. Carlos, que elle Queriol e alguns amigos (Augusto Talone, Frederico Ferreira, Antonio de Serpa, João Blanco e outros) tendo alugado burros no Poço de Borratém, seguiram alegremente, au clair de la lune, para o palacio do conde no Campo Grande.

Ahi encontraram em partida de jogo, sendo Fidié o banqueiro, uma boa roda de amigos: D. Antonio Galveas, Roberto Payant, D. José de Almeida Mello e Castro «O Cazuza», etc.

O Conde de Vimioso