Outros Fados, especialmente os politicos, e os que celebram algum acontecimento grave, são uma exploração de momento, um recurso de occasião, que pretende aproveitar a sensação causada no povo tanto pelas tranquibernias dos governos e dos collegios eleitoraes, como pelos factos de importancia occorridos nas classes superiores.

De modo que, póde bem dizer-se, o Fado é em nossos dias um poderoso instrumento de divulgação, que se transmitte facilmente, por meio da imprensa, com uma rapidez electrica.

Sob o ponto de vista da satyra e do epigramma, os Fados substituem os mordentes Pater noster de outr’ora, que não encontravam tão faceis meios de circulação como aquelles que a publicidade moderna proporciona.

Camillo, referindo-se a um Pater noster castelhano, que satyrisava Clemente VII, diz com razão: «É o que hoje chamaríamos o Fado do Papa

Caricatura do typo fadista no cortejo com que os estudantes da Escola Polytechnica de Lisboa celebraram a publicação do «Decreto do cuspo».

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] A lingua portuguesa, noções de glottologia geral e especial portugueza, por F. Adolpho Coelho.

[2] Historia do theatro portuguez no seculo XVIII, pag. 153.

[3] O sr. visconde de Castilho (Julio) quando, ao descrever uma noite de S. João na quinta da Boa Vista em Carnide, põe Vieira Luzitano, que nasceu em 1699, a arranhar na banza, como outros rapazes, «os accordes lacrimosos e dulcissimos de um fado», dá a esses accordes um nome que se não podia referir á epoca do serão, mas emprega uma designação generica em o nosso tempo, por dar a impressão da indole melancolica que sempre tiveram entre nós as canções populares.