«A navalha era por tal fórma alheia aos habitos sociaes em rapazes da época do conde de Vimioso, que uma só vez o que escreve estas recordações a viu brilhar na mão de um pouco conceituado frequentador do Marrare (cujo nome não cito por consideração a pessoas respeitabilissimas da sua familia, que ainda existem e não podem ter responsabilidade em factos degradantes de seus maiores já defuntos)—e que em questão de jogo de bilhar, offendido por um insulto do Lima da Cardiga, puxou de uma luzente catalan que Lima da Cardiga, em furia de leão, lhe arrancou da mão e fez pedaços no sobrado, subjugando sob os joelhos o aggressor, que os circumstantes salvaram de ser suffocado, mas não espesinhado pelo athletico Lima, que foi calorosamente applaudido pelos circumstantes, sendo apupada e envilecida a acção tão extraordinaria na sociedade d’então.
«Creio que d’esta scena foi testemunha D. João de Menezes, ainda vivo, mas pelo menos deve d’ella ter tido conhecimento.»
Agora é opportunidade de reproduzirmos o testemunho de Bulhão Pato; consta de uma carta dirigida ao sr. Queriol, e publicada no Popular de 8 de abril de 1901:
Monte de Caparica, Torre, março, 11, 1901.
Meu...
Conheci o conde de Vimioso quando tinha eu 15 annos, por que fui da creação do irmão mais novo—D. Pedro de Portugal e Castro. A mãe—marqueza de Valença—era muito minha amiga. Vimioso, como sabes, na praça dos toiros, no palacio e na feira dos ciganos era sempre um fidalgo de raça. Nunca usou faca senão as facas que montava; nunca levou aos beiços um quartilho em tabernas. A graça viva saltava-lhe da physionomia com os ditos originaes, portuguezes e galantes.
Fazia os seus alborques de cavallos, não havia cigano que o embaçasse, porém, repito, foi sempre um gentil-homem.
N’uma toirada no Campo Grande, no pateo da casa d’elle—em setembro de 88!—quando eu ia a metter um par de ferros n’um garraio—disse elle, alludindo aos meus primeiros versos—Se coras não conto—Se marras não brinco! Vivi muito, muito com elle, principalmente em caçadas na Torre Bella, nas lezirias, pelo Alemtejo. Que dias!
Abraço-te, a tua santa mulher e a teus filhos.
Teu do C.ᵒ
Bulhão Pato.