Comprehende-se que n’esta e outras occasiões, em que o conde de Vimioso enflorava o seu brazão com tantas provas de coragem, denodo e mestria, visse acenarem-lhe na praça muitos lenços brancos, agitados por mãos femininas, umas em que a brancura patricia era soignée com primor, outras morenas e menos cuidadas, como as da Severa, que, subjugada pela fascinação do cavalleiro prodigioso, o applaudia n’um frémito de enthusiasmo estonteante.
«O conde de Vimioso, diz o sr. Queriol, foi sempre o alvo dos mais calorosos applausos e o idolo das mais formosas damas, que lhe disputavam a preferencia em amores».
Como era de prevêr, a vida do conde gastou-se rapidamente. O seu organismo ardia em frequentes incendios, que lhe apressaram a morte aos 47 annos de idade.
Coincidencia notavel: falleceu no palacio do largo do Metello no mesmo mez em que tinha nascido.
A Revolução de Setembro do dia 10 de julho de 1864 noticiava que o conde de Vimioso havia expirado na noite antecedente, depois de um prolongado padecimento, ao qual succedeu um typho.
N’esse mesmo dia 10, um domingo, se realizou o funeral.
E, coincidencia não menos notavel! á hora em que o funebre cortejo saía do largo do Metello, ali perto, na praça do Campo de Sant’Anna, effectuava o cavalleiro Diogo Henriques Bettencourt o seu beneficio com um curro de 13 toiros fornecido pelo lavrador do Ribatejo Francisco da Silva Falcão.
O cortejo funerario d’esse que fôra o primeiro cavalleiro portuguez do seu tempo, e que tantas e tão ruidosas ovações conquistára na arena, contrastava singularmente com o cortejo tauromachico que á mesma hora entrava na praça ao som do hymno real para dar começo á lide.
As palmas e os bravos, com que o publico saudava os lidadores, contrapunham-se ás palavras doloridas com que os velhos aficionados lastimavam, caminho do cemiterio, a morte do conde de Vimioso.
E quando o ultimo raio de sol poente, n’essa calmosa tarde de julho, se apagava sobre o tumulo que recebera o cadaver do conde, o publico, na praça do Campo de Sant’Anna, levantava-se em massa, fremente de enthusiasmo, a applaudir o grande Sancho, que acabava de marear o ultimo touro da corrida com uma brilhante navarra.