«Chama-se Fadista—diz Theophilo Braga—ao vagabundo nocturno que no meio das suas aventuras modula essas cantigas (Fados); no velho francez, Fatiste significa poeta, e Edelestand Du Meril pretende que esta designação vem do scandinavo fata, vestir, compor.»[20]
Apoiado na chronologia, crêmos, como já exposémos, que não foram as canções que deram o nome aos fadistas; mas que, pelo contrario, d’elles o receberam as canções.
Tanto mais que, entre nós, a palavra fadista não tem a significação restricta de tangedor e cantor ou poeta de Fados, mas é commum a todos os individuos que vivem no mesmo meio de depravação e libertinagem, sejam de um ou de outro sexo.
E n’esta accepção generica parece tel-a já empregado o padre Rabecão em 1849, porque o seu fadista da taberna da Madragôa bebe e não canta.
A evidencia do typo—fadista,—de que Lisboa é alfòbre copioso, tem-se imposto, repetimos, á observação dos bellos-espiritos da litteratura moderna, alguns dos quaes, e dos mais brilhantes, o retrataram com uma fidelidade flagrante, como vamos vêr.
Ramalho Ortigão, nas Farpas, lança uma affirmação demasiado absoluta quando diz: «Em cidade alguma da Europa existe uma palavra de significação analoga a esta—o fadista.»
É claro que o typo humano não apresenta o mesmo aspecto em todas as raças e nações. O clima e a civilisação modificam-n’o, alteram-n’o. Mas ha um fundo cosmopolita, de equivalencia social, que supprime as distancias e as fronteiras.
Assim, pelo que respeita á escoria da sociedade, existe em Hespanha o chulo, e em França o souteneur, que correspondem ao nosso rufião.
Todos elles vivem á custa de mulheres perdidas, cantando e bebendo nas tabernas e nos bordeis, como os fadistas portuguezes.
Em Roma ha os camorristi, gente de «mala vita», que dão uma facada por gosto, e vivem na devassidão, como os bailhões e faias da fadistagem de Lisboa.