«Ás oito horas, no corredor estreito e comprido que é a sala do botequim de fadistas que lhes disse, todo occupado com duas filas de mesas onde os freguezes abancam, sentados em mochos de pau, para saborear a pequenos goles, uma cerveja que parece feita d’ourina albuminurica, ou qualquer chavena d’esse café negro e pegajoso que a Mouraria designa pelo pittoresco nome de carócha; ás oito horas não ha no botequim um unico logar, devoluto. Por um rótula de dois porticos, ao fundo, intercalada de prateleiras de garrafas, d’onde se franjam, por transparencia, fogos de rubis de creme rosa d’aguardente de ginjas, esmeraldas de Kermann, grandes topasios de licor de canella e tangerina, pousa o busto do cafézeiro, em camisola, um gordanchudo, barbaceno e alvar, que trata a freguezia por gajos, e coça as piugas nos entreactos da confecção dos capilés. De roda, outros gallegos ajudam, indo do fogão para o balde das lavagens, da gaveta das colhéres para os trés-fonds da baiuca, d’onde nos intervalhos de silencio vem um guinchar d’enormes ratazanas. Nas paredes, quadrinhos de mulheres offerecendo os seios á sucção de quem nas observa—bicos de gaz flambando sob tulipas de loiça pendentes do taboado; e por entre as filas de bancos onde mal cabe a perna do moço que faz o serviço, atravessa de quando em quando uma especie de rodeuse da rua Suja, chuchada, vestida de branco, com tamancos nos pés e lesmas de cabello ruivo sob a testa.»
A pintura é fiel, palpitante de realidade, e o scenario dos botequins fadistas não muda essencialmente de bairro para bairro.
O publico dá-lhes o nome de botequins de lepes; em calão, lepes quer dizer dez réis. Esta designação exprime a miseria dos habitués, e está um pouco antiquada, porque hoje a despesa a fazer n’aquelles botequins excede a de outros tempos. Todos elles ou quasi todos elles teem piano e pianista, que exige uma diaria certa; e as camareras, que servem as bebidas, vão arteiramente induzindo os freguezes a maiores gastos.
De todos os botequins fadistas da actualidade o mais amplo é o do Veiga no largo Silva e Albuquerque, onde aliás ha outro, o do Peres, afamado pela ginjinha; na rua d’aquelle mesmo nome o botequim do Ramalho tem uma roda abundante de habitués da Mouraria.
No Bairro Alto o botequim da rua da Atalaya, n.ᵒ 100; em Alcantara, o da Praça d’Armas, n.ᵒ 5; em Alfama o da Rosa Maria são os de maior nomeada na fadistagem hodierna de Lisboa.
Nas tabernas, onde as iscas vieram desthronar a chanfana, tão decantada no seculo XVIII por Tolentino e pelo Lobo da Madragôa, tambem o fadista tem preferencias especiaes, segundo os bairros.
Em Alcantara, na rua do Livramento, a taberna do Otero é conhecida pelo «armazém da meia noite», designação popular que por si mesma dá ideia de um coio de fadistas noctivagos.
Na rua da Guia a taberna do Manuel do Jogo, na rua da Amendoeira a taberna do Cego, no largo do Limoeiro a taberna do Pateo do Carrasco, e na rua de S. Miguel a taberna do Batalha são fócos vulcanicos da vida airada, onde o cheiro das frituras, do tabaco e do vinho condensam uma atmosphera crassa, capaz de congestionar um Hercules.
Tanto aos botequins como ás tabernas se liga a tradição do Fado no piano, na guitarra ou na voz soluçante dos «filhos da Desgraça», elles a ellas.
O fadista do Bairro Alto dir-vos-ha, se fôr consultado, que a guitarra de Alda Gracinda, rameira da rua do Diario de Noticias, vale um thesouro quando ella lhe põe as mãos.