Nos mares da India ou da China o Fado, tangido por elle ao luar, no convés do navio, lembra-lhe Lisboa, a Mouraria e Alfama; lembra-lhe a sua terra, se é saloio ou se é natural do Ribatejo.

O fadista saloio, diga-se de passagem, tambem tem tanto «caracter de classe», que se conhece pela apparencia: a carapuça ou o chapeu desabado, a melena repuxada, a calça de bocca de sino, o ar gingão e canalha.

Traz na carroça a guitarra e toca o Fado nas tabernas da estrada: ás vezes combina, com os maltezes, fazer um crime, assaltar um casal solitario e matar os donos.

Ainda outro escriptor portuguez descreveu o fadista: é Julio de Castilho no 1.º volume da sua Lisboa antiga.

«Deixal-o lá (o Fadista) sentado na borda do mocho da taberna, arranhar na banza truanesca os amores do conde de Vimioso, mais os seus; deixal-o ir saracotear-se na espera dos toiros, todo chibante com a sua calça de bocca de sino, e a sua jaleca de alamares; deixal-o ir para as hortas ao domingo, deleitar, com os chistes ambiguos do ultimo fadinho corrido, os bulhentos freguezes da Perna de Pau e do Alto do Pina.

«Estou-o a ver encostado a uma ombreira, de chapeu para traz e mãos cruzadas nas costas, com os olhos piscos do fumo azul de um cigarrito engelhado, que de quando em quando lhe pende ao canto da bocca, exprimir no rosto encorreado, na fronte baixa e estreita, na nuca de cão de agua, e na melena recurva, que elle enxota com as costas da mão, todos os segredos ignobeis dos antros que lhe são theatro. A sua voz avinhada e rouquenha come umas palavras, e estropia outras, ao prantear a morte da Severa, n’um tom silvestre de acre melancolia indescriptivel.


«O fadista do Bairro Alto é o marialva do rés do chão da sociedade, escória das tendencias elegantes de uma cidade grande, producto bastardo da ociosidade e do vicio. É o triste frequentador da galeria das causas crimes; e muita vez o pobre Othello obscuro da parte de policia. O fadista é um aleijão nos costumes; tarde lhe chegará a sua vez de regeneração, lôbrego vadio inconsciente, a quem o Limoeiro fascina, com o magnetismo escancarado de um sapo collossal.»

O fadista tem, nos seus bairros, botequins e tabernas especiaes, que frequenta todos os dias ou todas as noites: ahi se discutem os assumptos da classe, rixas, amores, ciumes, crimes da vespera ou do dia seguinte...

Fialho d’Almeida, nos Gatos,[28] coloriu com duas pinceladas intensamente descriptivas um botequim da Carreirinha do Soccorro: