Para ser fadista é necessario um longo tirocinio: aprender a tocar guitarra e cantar o Fado, a fazer «escovinhas», riscar, a esconder a navalha na manga da jaleca, a puxar as melenas, a enfiar as calças esticadas, e a fallar o calão.
Vemos ás vezes rapazes do povo trabalhando em qualquer officio, mas já vestidos de fadistas: andam na aprendizagem, por vocação e por gosto.
Não esperam senão a monção favoravel que os ha de levar definitivamente para a vida do fado.
Essa monção é qualquer acontecimento de familia—a morte do pai, da mãe ou de algum outro parente que ainda lhes impunha certo respeito.
Partido esse laço, adeus trabalho, adeus honra, adeus dignidade e consciencia.
Até o seu appellido perderão: hão de passar a ser conhecidos por um alcunha.
Ha só um caso em que o noviço do fado ainda pode salvar-se: é se não conseguiu livrar-se, por debilidade physica, de sentar praça no exercito.
Palmeirim nota com razão: «O fadista, feito soldado, deixa de ser homem, é um automato! Os artigos da guerra arrefecem-lhe a inspiração, entibiam-lhe o enthusiasmo pela poesia, sua irmã de infortunio.»
Mas isso não acontece sempre, não é regra geral, porque muitas vezes o iniciado na fadistagem, depois de ter sentado praça no exercito ou na armada, conserva os seus amores nos bordeis, frequenta os bairros e botequins suspeitos, arma desordens com a policia e com os soldados da guarda municipal, e chega o ser um heroe... da Mouraria.
O marinheiro é muito mais fadista do que o soldado: talvez por que a guitarra de bordo seja o traço de união que o põe em constante communicação espiritual com os outros fadistas.