A accepção da palavra Fado no sentido de «canção» é relativamente moderna, ou só modernamente passou do calão para o vocabulario geral da lingua e para a technologia musical.
Não apparece era os nossos mais antigos diccionarios: não vem em Bluteau (1712-1721); nem em Santa Rosa de Viterbo (1798).
Nem apparece tambem nas primeiras edições do Diccionario de Moraes (seculo XIX) tanto nas duas que foram revistas pelo auctor como em algumas das que se fizeram depois da sua morte.
O Diccionario de Faria, cuja 1.ª edição é de 1849, não traz, no vocabulo Fado, aquella accepção.
É só depois de passada a primeira metade do seculo XIX que a palavra Fado apparece nos diccionarios da lingua com o significado de canção popular, já sanccionado pelo uso commum.
Lacerda, na 4.ª edição, que é de 1874, diz: «Fado, cantiga e dança popular, muito caracteristica e pouco decente: o de Lisboa, o de Coimbra».
Na 5.ª edição, 1879, não altera a definição, mas substitue a palavra Coimbra pela palavra Cascaes.
Na 5.ª edição de Moraes ainda não apparece o vocabulo Fado com a significação de canção ou cantiga. Não pudemos consultar a 6.ª edição. Mas examinamos a 7.ª (1878) e foi n’esta que se nos deparou a accepção que procuravamos: «Fado, poema do vulgo, de caracter narrativo, em que se narra uma historia real ou imaginaria de desenlace triste, ou se descrevem os males, a vida de uma certa classe, como no fado do marujo, da freira, etc. Musica popular, com um rythmo e movimento particular, que se toca ordinariamente na guitarra e que tem por lettra os poemas chamados fados.»
Isto pelo que respeita aos diccionarios portuguezes.
Quanto aos estrangeiros, tambem não se encontra no Glossarium de Ducange aquella accepção.