Apenas Freund, no seu diccionario latino, cita os vocabulos Fatum e Fatus como derivações de uma raiz commum, attribuindo a Fatus tanto a significação de destino como de discurso, o que justifica a propriedade com que se chama Fado á cantiga, ao discurso em verso que trata do destino, conservando-se ainda no Alemtejo a redundancia de dizer cantigas do Fado, para designar todas aquellas a que o destino serve de thema.

Nas collecções da Bibliotheca Nacional de Lisboa ha bastantes canções populares, desde 1820 até hoje, mas em nenhuma das mais antigas se encontra a designação de Fado.

Intitulam-se «cantigas, romances, modas ou modinhas, etc.»

O Diccionario erudito de Padre João Pacheco (1734-38) traz todas as designações de musicas, canções e danças do seu tempo, mas não menciona os Fados.

Nas Infermidades da lingua, e arte que a ensina a emmudecer para melhorar, composta pelo dr. Manuel Joseph de Paiva e publicada em 1760, vem arrolado grande numero de palavras e phrases, que o auctor, com excessivo e ás vezes injustificavel escrupulo, pretendia repellir da lingua portugueza, por as julgar indignas e improprias de um vocabulario grave.

Não apparece ahi a palavra Fadista; nem a palavra Fado no sentido de canção ou de vida dissoluta.

Mas vem mencionada a palavra banza que nós recebemos das nossas colonias africanas,[1] e que entrou na linguagem de calão d’onde passou para a litteratura humoristica, como se vê nas Poesias de Costa e Silva (1844):

Encostado ás meias portas

Na Banza sarrafaçava.

No fim do seculo XVIII a Gazeta de Lisboa annunciava, frequentes vezes, modinhas e minuetes, á venda nas lojas dos livreiros. Tambem annunciava sonatas de guitarra. Havia em 1792 um Jornal de modinhas, que se vendia na Real Fabrica e Impressão de Musica no Largo de Jesus, em Lisboa. O maestro Mr. Marchal, que então teve certa voga n’esta cidade, deu á estampa uma collecção de minuetes e rondós. Este mesmo maestro explorava a musica das ruas, glosava os pregões das vendedeiras (por exemplo, Azeitonas novas, com variações, peça composta sobre o pregão de uma vendedeira de Lisboa: Gazeta de 26 de fevereiro de 1793). Mas a designação Fado não apparece ainda em nenhum dos annuncios que recommendavam as musicas populares.