Beckford, nas suas cartas sobre Portugal, apenas se refere ás «modinhas», acompanhadas a guitarra.

É que no seculo XVIII a modinha estava em voga no nosso paiz; dominava por toda a parte, até no theatro, onde Antonio José da Silva, o Judeu, a aproveitou como elemento essencial das suas composições dramaticas.

Theophilo Braga diz que a modinha, comquanto «seja uma creação musical do genio portuguez» se chamava brazileira, porque no Brazil se conservou «levada para ali pelos negociantes e colonos, e do Brazil a trouxe na sua inteireza primitiva Antonio José da Silva, que abandonára a patria aos oito annos de idade e achava n’essas cançonetas uma recordação da infancia.»[2].

Stafford, na Historia da musica, diz que as arias nacionaes dos portuguezes eram os lunduns e as modinhas; Fétis falla de Hespanha, mas não de Portugal.

Em toda a graciosa collecção da Macarronea, que tão pittorescamente retrata a vida academica de Coimbra no seculo XVIII, não ha noticia do Fado, mas sim de outras canções que os estudantes cantavam: mille trovas, com diz o Sabonete Delphico.

Na Feição á moderna ou logração desmascarada vem especificadas algumas d’essas canções, portuguezas e hespanholas: «E logo dareis duas gaitadas, fazendo o compasso com o pé, e seguindo o sonoro com a cabeça. Victor quem canta; lá vae Bella arma misera, ou outra da moda; depois entregar a algum curioso o instrumento, sair para o meio com o chapeu na mão a desafiar algum circumstante; dar quatro voltas de pé cambeo, ou bem ou mal, que sempre no fim se-ha de applaudir com catarro. Acabada esta primeira jornada, gritareis dizendo: «Venha doce, que estou esfalfado»; e depois de consolar a barriga comendo doce usque ad satietatem, saireis outra vez com o segundo papel lançando uma nesga de relação antiga v. g. do Mariscal de Viron, ou D. Carlos Ozorio, intimando no furor das acções a valentia, e nos requebros da voz a ternura, cortando o hespanhol como queijo do Alemtejo com faca flamenga, e no fim correspondendo aos vivas com perna trocada.»

Nicolau Tolentino, que morreu em 1811, falla no doce londum chorado, nas modinhas brazileiras, cita algumas canções populares, taes como De saudades morrerei e a Comporta; diz referindo-se á primeira,

Cantada a vulgar modinha,

Que é a dominante agora;

e alludindo á segunda,